“O Nosso Jeito de Ser Igreja”, canção de minha autoria, nasceu da experiência das Comunidades Eclesiais de Base e integrou o cancioneiro do 13° e do 14º Intereclesial das CEBs, realizados, respectivamente, no Cariri cearense e em Londrina, no Paraná. A composição chegou também a materiais posteriores de formação das comunidades.
Volto a ela agora por uma razão diferente.
Depois de alguns textos em que tenho questionado a realidade atual das CEBs, comecei a perceber que talvez a própria música contenha perguntas que ainda não terminamos de responder.
Não quero, portanto, explicar a canção. Quero deixá-la nos explicar.
O refrão afirma que “O nosso jeito de ser Igreja é o nosso jeito de viver a fé.”
Parece uma definição. Hoje, porém, leio como uma tese eclesiológica e, ao mesmo tempo, como um exame de consciência.
Se o jeito de viver a fé revela o jeito de ser Igreja, então a pergunta não é apenas se as CEBs continuam existindo. A pergunta mais incômoda é sobre o que o nosso modo atual de viver a fé revela sobre a Igreja que estamos nos tornando?!
Essa mudança de pergunta é importante. Porque talvez estejamos discutindo demais sobre a sobrevivência das CEBs e de menos sobre sua capacidade de produzir uma experiência cristã capaz de interpretar o presente.
Na primeira estrofe, escrevi: “Estamos na luta organizando a caminhada / por moradia, saúde, educação.”
Aqui existe uma ideia que ultrapassa a militância social. Existe uma antropologia.
O ser humano não é apenas alguém que recebe assistência. É alguém que se organiza, interpreta sua realidade e participa da construção do próprio destino.
Isso também é teologia da libertação. A pessoa deixa de ser objeto da pastoral e torna-se sujeito da história.
Ainda estamos formando sujeitos ou apenas mantendo comunidades?
Porque comunidade pode ser lugar de libertação, mas também pode se transformar em lugar de repetição.
Pode gerar consciência ou acomodação.
Pode produzir protagonismo ou dependência.
Pode formar sujeitos ou simplesmente conservar estruturas.
É aqui que a sociologia encontra a teologia.
Toda comunidade produz relações de poder. E uma Igreja que pretende ser libertadora precisa ter coragem de olhar para o próprio poder.
Quem fala? Quem decide? Quem interpreta a Bíblia? Quem define o que é pastoralmente importante? Quem representa a comunidade? Quem chega e encontra espaço?
Essas perguntas são mais profundas do que parecem. Elas revelam se estamos diante de uma comunidade verdadeiramente participativa ou apenas diante de uma estrutura tradicional utilizando uma linguagem comunitária.
Na segunda estrofe, escrevi: “Entendemos que justiça e profecia têm que estar a serviço do irmão.”
A palavra “entendemos” talvez seja uma das mais importantes. Não escrevi “aprendemos”. Escrevi “entendemos”.
E compreender é mais do que sentir. É interpretar.
Aqui entra a hermenêutica. A fé não é apenas aquilo em que acreditamos. É também a maneira como interpretamos Deus, o ser humano e o mundo.
Por isso, uma comunidade que deixa de interpretar a realidade perde parte de sua capacidade profética.
E talvez seja esse um dos problemas mais sérios das CEBs atualmente.
Elas foram criadas para ler os sinais dos tempos, mas correm o risco de transformar sua própria memória em sinal do tempo passado. É uma diferença enorme.
A tradição deveria ser uma fonte para interpretar o presente, não uma desculpa para não interpretá-lo.
Depois vem uma das frases que considero mais atuais da música: “Religião que prega melancolia não faz sentido e caminha sem direção.”
Há uma antropologia escondida nessa frase. A religião deveria ampliar a capacidade humana de viver, esperar, amar, criar vínculos e encontrar sentido.
Quando a experiência religiosa produz apenas medo, culpa, tristeza ou dependência, alguma coisa se perdeu no caminho.
Uma Igreja que anuncia libertação não pode ter como principal produto pastoral a culpa.
E talvez aqui exista uma pergunta que precisamos fazer também às CEBs. Nossa linguagem ainda produz esperança ou apenas repete discursos que já não conseguem alcançar o imaginário contemporâneo?
A terceira estrofe aprofunda ainda mais a provocação: “O sagrado que se estende a todos nós / sem distinção de credo, raça e cor.”
Isso não é apenas ecumenismo. É uma determinada compreensão antropológica do outro.
O outro não é uma ameaça à minha identidade. É alguém cuja dignidade antecede a minha capacidade de concordar com ele.
Num tempo marcado por fundamentalismos, intolerâncias religiosas e identidades transformadas em trincheiras, essa frase talvez seja mais revolucionária hoje do que quando foi escrita.
Uma Igreja que acredita que o sagrado se estende a todos precisa aprender a dialogar com quem está fora dela.
Mas também precisa aprender a escutar quem está dentro e pensa diferente.
Isso nos leva a outra questão: uma Igreja pode ser realmente comunitária se não consegue conviver com a diferença?
Talvez não. A comunidade não é o lugar onde todos pensam igual. É o lugar onde pessoas diferentes descobrem que podem caminhar juntas sem deixar de ser diferentes.
Essa é uma questão pastoral, mas também profundamente política e antropológica.
Na quarta estrofe, escrevi: “Nossa Igreja nasce na comunidade / fraternidade, esperança e louvor.”
A palavra “nasce” é decisiva. Não escrevi que a Igreja “funciona” na comunidade.
Escrevi que ela nasce. Isso significa que Igreja, nessa perspectiva, não é primeiro uma instituição que depois cria comunidades. A comunidade é parte constitutiva do próprio ser Igreja.
E aqui aparece uma provocação enorme para a realidade atual.
Talvez algumas CEBs estejam preocupadas demais em conservar aquilo que nasceu e pouco preocupadas em fazer nascer alguma coisa nova.
Uma comunidade que não gera novas lideranças, novas linguagens, novas perguntas e novas experiências corre o risco de continuar existindo biologicamente enquanto desaparece culturalmente.
E então chegamos ao trecho que hoje considero talvez o mais importante da música.
“Não aceitamos mais viver de ilusão / a nossa fé nos exige os pés no chão.”
Essa frase deveria ser quase um método pastoral. Pés no chão significa olhar a realidade sem romantizá-la. Inclusive a realidade das próprias CEBs.
Significa reconhecer que há comunidades envelhecidas, dificuldades de renovação, perda de presença entre os jovens, mudanças culturais profundas e uma distância cada vez maior entre determinadas linguagens e a experiência contemporânea.
Mas significa também não abandonar aquilo que continua vivo.
A pergunta não deveria ser “como recuperar o passado”? Talvez seja: “O que precisa morrer para que alguma coisa nova possa nascer?”
Essa é uma pergunta pascal. E talvez seja também a pergunta que as CEBs estejam evitando. Não estou falando da morte das CEBs. Estou falando da morte de certas formas de fazer CEBs.
Porque uma experiência histórica só permanece fiel a si mesma quando consegue mudar aquilo que precisa ser mudado.
A própria tradição bíblica é cheia de rupturas. O êxodo rompe com a escravidão. Os profetas rompem com uma religião acomodada. Jesus rompe com fronteiras religiosas, sociais e culturais. As primeiras comunidades rompem com uma compreensão puramente individual da fé.
A fidelidade bíblica nunca foi simples repetição. Fidelidade, muitas vezes, é a coragem de romper para permanecer fiel ao essencial.
E talvez essa seja a leitura mais contemporânea que podemos fazer da música. Ela não deveria ser cantada apenas para lembrar quem fomos. Deveria ser cantada para perguntar quem ainda somos. E, principalmente, em quem estamos dispostos a nos tornar.
Hoje, minha própria música me parece menos uma celebração das CEBs e mais uma provocação a elas.
Quando digo que “as CEBs é o jeito da Igreja ser”, não estou dizendo que elas já realizaram plenamente esse jeito.
Estou dizendo que existe ali uma possibilidade de Igreja. Uma Igreja que organiza a caminhada. Que enfrenta a realidade. Que coloca a justiça a serviço do irmão. Que rejeita uma religião melancólica. Que reconhece o sagrado no outro. Que nasce da comunidade. Que segue Jesus libertador e que exige os pés no chão.
Talvez seja justamente esse o desafio de agora.
Não perguntar se as CEBs sobreviverão, mas se aquilo que elas representam ainda consegue nascer novamente.
Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma. Pode conservar seus símbolos e perder sua linguagem. Pode conservar sua memória e perder sua capacidade de gerar futuro. E talvez a grande contribuição das CEBs para a Igreja contemporânea não seja oferecer um modelo pronto. Seja oferecer uma pergunta.
Que Igreja estamos construindo quando vivemos a nossa fé?
É por isso que continuo acreditando naquela última afirmação da música. Não como uma conclusão. Mas como uma tarefa: as CEBs são um jeito da Igreja ser.
E, se ainda acreditamos nisso, talvez tenha chegado a hora de parar de cantar apenas aquilo que fomos e começar a construir aquilo que ainda não conseguimos ser.
