A preocupação com os pobres, com o bem comum, com a justiça social e o cuidado da casa comum não pode prescindir da política. Ela tem consequências diretas e decisivas na vida do povo. Educação, saúde, terra, moradia, aposentadoria, saneamento, estrada, preço dos alimentos, do gás e do combustível, direitos trabalhistas, proteção ambiental, dentre tantas coisas que interferem decisivamente em nosso cotidiano, passam pela política. A garantia ou negação desses bens tão fundamentais para nossa vida depende de opções e decisões políticas. Não se pode banalizar nem “lavar as mãos” com a política. Tampouco se deve entrar na onda do “tanto faz” ou é “tudo igual”.
Respeitando sempre a autonomia da política e suas mediações (partidos, governos, instituições, Estado) (CDSI 424), a Igreja, em sua missão evangelizadora, não pode jamais ficar indiferente à política (CDSI 435). Ela não está ligada a nenhum partido político, mas toma posição política. Não tem partido, mas toma partido: contra tudo o que ameaça e destrói e a favor de tudo que protege e promove a dignidade humana, os direitos humanos, a justiça socioambiental, a biodiversidade e o conjunto da criação (CDSI 81). É a dimensão política da fé e da missão evangelizadora da Igreja, que, embora não se reduza à política partidária, não pode prescindir nem ficar indiferente a ela.
O magistério da Igreja é muito claro nesse ponto. Tanto no que se refere aos princípios e critérios que devem orientar e regular a política, quanto no que se refere a participação dos cristãos no mundo da política. O Concílio Vaticano II exorta os fiéis leigos ao compromisso sociopolítico: “Os católicos peritos nos negócios públicos e firmes na fé e doutrina cristã, não recusem participar neles, uma vez que, exercendo-os dignamente, podem atender ao bem comum e, ao mesmo tempo, abrir caminho ao Evangelho” (AA 14). João Paulo II afirma que “os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na ‘política’, ou seja, da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum” (CL 42) e que “é urgente formar homens e mulheres capazes de influir, segundo a própria vocação, na vida pública, orientando-a para o bem comum” (EA 44). Francisco recordou que “a política é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (EG 205, FT 180) e insistiu muito na responsabilidade sociopolítica da Igreja: “É verdade que os ministros da religião não devem fazer política partidária, própria dos leigos, mas mesmo eles não podem renunciar à dimensão política da existência que implica uma atenção constante ao bem comum e a preocupação pelo desenvolvimento humano integral. A Igreja ‘tem um papel público que não se esgota nas suas atividades de assistência ou de educação’, mas busca a ‘promoção do homem e da fraternidade universal’ (FT 276).
E o trabalho pastoral com os pobres e marginalizados na luta por seus direitos e no cuidado da casa comum mostra a necessidade fundamental da mediação política na conquista e garantia desses direitos. Não se pode enfrentar o problema da moradia sem políticas públicas de habitação. Por mais que demarcação de terras indígenas e quilombolas e reforma agrária sejam fruto da luta indígena, quilombola e camponesa, sua garantia passa pela mediação política. Não se pode pensar o trabalho com a população em situação de rua (mais de 365 mil pessoas!) sem políticas que atendam suas necessidades. E assim por diante. A luta por direitos e justiça socioambiental passa, também e necessariamente, pela mediação política em suas várias esferas. Depende, em grande medida, do legislativo, do executivo e do judiciário. Por essa razão, não se pode prescindir, na pastoral social, da mediação política e da atuação política.
O Documento 105 da CNBB – Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade (número 263), ao tratar da ação dos cristãos no mundo da política, indica uma série de tarefas, atividades e processos para despertar e qualificar sua atuação política na sociedade: movimentos e organizações populares, conselhos de políticas públicas, partidos políticos, mandatos políticos, escolas de fé e política ou fé e cidadania etc. Faz parte da missão cristã cuidar de nossa casa comum, buscando o bem comum, fazendo a boa política, construindo uma sociedade mais justa e fraterna, conquistando e garantindo direitos, fortalecendo a democracia, promovendo a justiça e a paz.
Isso nos ajuda também no discernimento eleitoral, escolhendo candidatos/as, partidos e projetos que favoreçam e promovam os direitos humanos e o cuidado da casa comum. Não existe candidato/a nem partido perfeito e ideal. É preciso manter sempre o senso crítico. Voto não significa apoio incondicional a candidato/a e partido, mas escolha, dentre as possibilidades existentes, do que mais se aproxima e favorece o dinamismo evangélico dos direitos humanos, da justiça social e do cuidado da casa comum.
Vote com fé!
Vote pensando no bem comum, na justiça social, no cuidado da casa comum!
