O sentido diante do irreversível

No primeiro dia de março, segundo domingo da Quaresma, participei do velório e do sepultamento, no Cemitério São José, em Camocim, dos restos mortais de um querido amigo e companheiro de profissão, o comunicador Marcílio Marques.

Diante do pranto e da dor da saudade, me veio forte alguns recortes da reflexão escatológica do amigo Celso Carias, Teólogo carioca, especialmente como ele apresenta em uma de suas obras, Teologia para Todos.

Antes de refletir de forma mais madura sobre a morte, uma frase de minha saudosa vó paterna, Nazaré, me norteava no luto: “sofremos com a única certeza da vida”.  Não porque a morte exista, mas porque fomos ensinados a evitá-la, escondê-la e temê-la como se fosse afronta à própria vida.

Aprendemos a descrevê-la biologicamente, mas não a pensá-la existencialmente. Reduzimo-la ao fenômeno. Esvaziamos o mistério. Muitas vezes a morte, como nos coloca o teólogo, fica “restrita ao fenômeno”, sem que se penetre “na realidade do seu significado para a vida da pessoa que morre”. Quando isso acontece, o essencial deixa de ser visto.

A morte, que já foi experiência comunitária, foi sendo empurrada para espaços técnicos e silenciosos. O morrer tornou-se reservado, quase oculto. É o que ele define como “crescente privatização do ato de morrer”. O que antes envolvia comunidade e família hoje se limita, em muitos casos, a corredores hospitalares e protocolos clínicos. Não é apenas o corpo que se isola. É o sentido que se fragmenta.

Neste caso, o problema não é a morte. É a fuga dela.

Neste sentindo, como nos ensina Celso, “fugir da reflexão sobre a morte significa fugir da reflexão sobre o homem”. Essa afirmação desinstala. Pensar a morte é pensar a condição humana. É reconhecer finitude, fragilidade e limite. É admitir que não somos absolutos.

A boa filosofia também ensina que a consciência da finitude dá densidade à existência. Já a honesta teologia recorda que a morte não é apenas término, mas passagem. A escatologia fala de consumação, não de aniquilação. O fim pode carregar plenitude.

Ocorre que transformamos a morte em fracasso. Dizemos que alguém “perdeu a batalha”, como se viver fosse guerra contra o inevitável. Esquecemos que a finitude não é erro da criação, é condição da própria existência humana.

Negar a morte empobrece a vida. Torna a sociedade superficial, intolerante ao sofrimento e obcecada por prolongamentos artificiais que muitas vezes escondem apenas medo. O que apavora talvez não seja a morte, mas a revelação que ela traz. No fim, tudo que é acessório cai. Permanecem o amor, a verdade e as escolhas.

Aqui, creio que se a morte é “inevitável”, ela não pode ser o “sentido”

A maturidade espiritual talvez consista em compreender que a última palavra não precisa ser desespero. A morte não é rejeição. Rejeição é ausência de amor.

Se a fé ousa afirmar que nem a morte rompe definitivamente o vínculo com o Amor, então o que chamamos de fim pode ser encontro. Viver é preparação. Não para desaparecer, mas para responder com lucidez e esperança ao mistério que sempre acompanha em silêncio.

Carlos Jardel

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