
Em tempos de tantas turbulências, talvez nos perguntemos qual o sentido e o lugar das espiritualidades. Estamos cercados pelos dilemas de uma humanidade que se desumanizou; um ser humano que se colocou no centro, iludido com o poder e o desejo de ser ‘como Deus’; um fazer político marcado pela crueldade, pela tecnologia antiética e pela ambição desmedida do capital.
Qual será, então, o lugar das espiritualidades? Será um lugar de ilusões e imaginações sem enraizamento? Será um lugar de refúgio ou consolo, como profetizaram alguns filósofos nos séculos passados? Será um lugar de busca de respostas diante de tantas perplexidades?
Nosso caminho vai em outro sentido. Na verdade, não acreditamos que as espiritualidades buscam respostas, pois em sua fonte, elas estão diante do Mistério e, humildemente fazem seus caminhos de existência, mas também de integração entre os muitos tempos da história e para além da história.
Nesse mundo, no qual a injustiça se tornou estrutural, as espiritualidades nos chegam com o clamor que vem do diálogo fecundo entre toda a Criação e o Amor Sagrado: o clamor pela compaixão, pela solidariedade, pela fraternidade-sororidade, o clamor pela reverência e defesa dos direitos dos humanos e da Terra, Casa Comum.
Nossa perplexidade tem nos trazido desânimos, angústias, sentimentos de impotência, de não-saber, de inadequação. São sentimentos que nos paralisam, que nos desconectam, que nos fazem virar o rosto, mudar de canal, baixar a cabeça para as telas do celular. São sentimentos que nos isolam ainda mais e precisamos ter todo o cuidado com eles, pois nos atingem certamente. Os caminhos espirituais se tornam imprescindíveis, pois serão eles, e apenas eles que nos alçarão para as ferramentas e estratégias de vermos além dessas questões tão cruciais, no sentido de nos enraizar na razão do viver, na compaixão e nos verbos que brotam desse enraizamento, pois o Amor é verbo de encarnar, de se tornar concreto e cotidiano.
Nosso convite nesta breve reflexão é firmarmos nossos pés nos caminhos de espiritualidade. Escolha um caminho: o caminho cristão vai nos conduzir pelos passos da Revelação presente, misericordiosa, encarnada, crucificada e ressuscitada no amor concreto; o caminho dos povos originários vai nos conduzir para a conexão profunda com todo o cosmos e com todos os tempos e lugares; o caminho dos povos africanos vai nos conduzir pela reverência e escuta da sabedoria na espiritualidade ancestral; o caminho budista vai nos conduzir para o mergulho no mais profundo do ser; e ainda há tantos caminhos na história da humanidade… Através deles podemos encontrar uma forma de colocar os pés no chão que não apenas enraíza, mas que nos alimenta com sua seiva, nos ergue como troncos que somos e abre nossos galhos para uma copa na qual os pássaros podem se abrigar, como diz a parábola que Jesus nos conta sobre o Amor do Pai: “embora seja a menor entre todas as sementes, quando cresce, torna-se uma das maiores plantas e atinge a altura de uma árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos” (Mt 13,32).
O caminho espiritual vivido no cotidiano começa a percorrer todo o seu ser. Respire nesse caminho, se alimente nele, ouça suas palavras sagradas, silencie nele, se deixe interpelar e modificar. O Amor Divino te conduzirá. O caminho espiritual se torna, nesse processo, a integração que chamamos de Mística.
Não desejamos aqui adentrar a uma crítica à institucionalização das religiões, ou mesmo às cumplicidades com os sistemas imperialistas e cruéis aos quais nos referimos acima. Nesta reflexão desejamos focar no cerne dos caminhos religiosos, por isso mesmo, chamamos de caminhos de espiritualidades. De dentro de nossas pertenças religiosas, precisamos assumir a identidade que dá sentido àquela pertença, voltar às origens, às suas fontes reveladoras e referenciais. De dentro de nossas pertenças religiosas, é fundamental mantermos o vínculo comunitário, as trocas, as revisões de vida, as circularidades diante das fontes sagradas, os rituais litúrgicos. De dentro de nossas pertenças, é imprescindível que não nos deixemos isolar de tudo que ocorre no mundo e formemos novas bolhas desconectadas de tudo e de todos. De dentro de nossas pertenças, encarnemos o princípio ético-amoroso-solidário de dialogarmos com a realidade, com os contextos sociais, culturais, econômicos, políticos, e juntas/os encontrarmos experiências de reparação, de sintonia, de cuidado integral, de compromisso concreto. De dentro de nossas pertenças religiosas, vamos descobrindo no dia a dia que estamos todas/os no caminho, mas que também não estamos sozinhas/os, pois somos abraçadas/os pelo Amor presente e integrador que tudo conduz.
Sim, acreditamos que os caminhos espirituais não são desconectados da vida ou ilusórios, ao contrário, é através deles que encontramos uma espiritualidade integral e libertadora, que nos resgata em nossas fontes e dá razões e sentidos ao viver. É claro que esses caminhos não são cômodos, pois justamente nos retiram do sofá confortável que o capitalismo vai nos colocando. Eles serão incômodos, interpelantes, clamando por conversão de atitudes, gestos, palavras, mas sempre nos saberemos acompanhados pelos vínculos compartidos, comunitários, humanitários, ambientais, mas, principalmente, pela integração no Amor que nunca se desconecta de sua Criação.
Bem feliz quem acha em ti
força para caminhar
passando por terra seca
em fontes vai transformar
(Salmo 84 – adaptação e composição musical – Reginaldo Veloso)



