
Iniciamos a coluna com um reconhecimento: há esforço de gente boa para não deixar que o trabalho pastoral se reduza a um ritualismo subjetivista e superficial no Brasil. Contudo, aqui queremos ressaltar o que vem predominando nos diversos espaços eclesiais católicos que entendem a sua ação como evangelização.
Em segundo lugar recordar, muito objetivamente, o significado de evangelizar. São Paulo VI e o Papa Francisco fizeram uma síntese brilhante quanto a isso: Evangelli Nuntiandi (EN, 1975) e Evangelli Gaudium (EG, 2013) respectivamente. Apenas uma breve citação do número 20 da EN: “Importa evangelizar não como que passando um verniz superficial, mas indo às raízes da realidade cultural”. Evangelizar supõe articulação comunitária, processo catequético, boa iniciação cristã, formação bíblico-teológica, ir ao encontro das pessoas onde elas estão, sobretudo nas periferias, sejam territoriais ou existenciais, e entre outros aspectos, grande consciência sinodal.
Temos assistindo muita superficialidade. Por exemplo: atribui-se a mídia digital uma grande responsabilidade como meio de evangelização. Sim, a mídia é uma ferramenta hoje importante, mas se ela não indica o caminho para se viver a fé em comunidade, como é específico do cristianismo, “onde dois ou mais”, “os cristãos tinham tudo em comum”, ela pode ser apenas reflexo de uma “sociedade do espetáculo”. O fenômeno de atrair multidões tem se demonstrando efêmero, passageiro. Em um tempo se reúne milhões, em outro estes milhões já estão focados em outra direção.
O trabalho pastoral não pode ser reduzido a ações performáticas para atrair público. Para produzir “likes”, para atrair seguidores e seguidoras que se colocam como defensores de uma “verdade” transmitida por gente que, por exemplo, não leu a EN ou a EG. Gente que produz discurso de ódio, que faz aumentar a intolerância religiosa, gente que faz crescer preconceito em nome de uma ortodoxia extremamente questionável. E sempre se afirmando como “verdadeiros católicos”. Determinantemente, tal realidade não testemunha o Evangelho. Não é por acaso que tem crescido o número de pessoas “sem religião”, pois não confiam mais nas instituições religiosas.
Há uma crítica que afirma a responsabilidade do esvaziamento da Igreja Católica à dimensão pastoral que prioriza fé e vida. Ora, os dados dos últimos sensos não dizem isso. Circunscrições eclesiásticas que não priorizaram esta relação perderam mais em termos de número de fiéis.
A análise da crítica acima é um “verniz superficial’. Não leva em consideração fenômenos subjacentes a cultura atual, como o processo de urbanização. Não leva em consideração as mudanças na relação entre produção e trabalho. Por exemplo, a Missa dominical é fundamental na espiritualidade católica, mas como “obrigar” um fiel que trabalha no comércio? Que energia tem um/a trabalhador/a para ir à Missa no único dia de descanso, isto se ele não faz extra no domingo? Quais as consequências da “uberização” do trabalho para a prática pastoral? E os territórios violentos? Queremos que a Igreja seja frequentada apenas pela classe média? A Dilexi Te é apenas uma narrativa bem intencionada do Papa Leão XIV? E a lista pode ser acrescida de forma bem ampla.
Na formação dos futuros presbíteros, nos seminários, predomina uma visão ritualista. Houve época na qual os seminaristas faziam seu “estágio” pastoral junto aos diversos serviços pastorais e não apenas organizando liturgias. Dom Mauro Morelli dizia que este é um momento no qual os candidatos precisariam ser desafiados. Na década de oitenta do século passado, dois seminaristas ajudaram a fundar a Pastoral do Menor na diocese de Caxias: um foi ordenado padre e o outro saiu do seminário, mas se tornou professor de teologia. Aqui caberia uma longa reflexão.
Soma-se ao que vem sendo dito as contradições ideológicas. Nota-se, por exemplo, com muita evidência, a indicação de “valores morais” que se afirmam como o único caminho para as famílias. Ora, nenhum problema se a família tradicional é apresentada como um caminho de realização humana. Porém, este caminho precisa ser, de fato, humanizador. A mulher precisa ter a liberdade de fazer uma opção de vida que não a torne uma escrava. Os filhos não podem ser submetidos a um autoritarismo patriarcal. Há muita hipocrisia neste campo. Há um silêncio absurdo quanto à violência doméstica, que não se reduz, sabe-se muito bem, à violência física. As pesquisas mostram que, em famílias evangélicas e católicas, o índice de violência é enorme. Consequentemente, é assustador o crescimento do feminicídio, e pior, com discurso moralista de culpabilização da vítima. Este deveria ser um tema de uma Campanha da Fraternidade.
Há setores bem intencionados que indicam os valores morais tradicionais. Em uma sociedade democrática, este direito precisa ser garantido. Mas não se pode fechar os ouvidos e os olhos ao uso destes valores como bastião de uma estrutura de poder. E pior, um poder que desvaloriza a democracia. Existe, inclusive, quem se alie a concepções fascistas. O que isso tem a ver com a ação pastoral? Tem a ver com o testemunho. Como disse São Paulo VI na EN, “os testemunhos arrastam”. Bento XVI dizia que a Igreja deve evangelizar por atração.
Pode-se falar também das questões psicológicas. O filósofo Byung-Chul Han fala de uma “sociedade do cansaço”. A sociedade da positividade que não aceita a possibilidade de perder. A culpa é sempre do indivíduo. A meritocracia é apresentada como uma saída, como se fosse possível competir no interior de uma sociedade extremamente desigual. Pessoas com um heroísmo fenomenal conseguem prosperar, mas no conjunto é uma grande luta pela sobrevivência. Uma grande pressão oprime a psique, fazendo crescer, inclusive os casos de suicídio. Mesmo entre presbíteros, cresce o número daqueles que desistem da vida.
Aqui não temos condições de fazer indicações práticas da ação pastoral. Fizemos isto em livro: “Por uma paróquia sinodal”. Mas se levarmos a sério as pistas do Documento Final do processo sinodal que ainda está se desenvolvendo, poderemos deter inicialmente a decadência e em um futuro não muito distante até atrair mais.
São Paulo VI perguntou na EN, em 1975: “O que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente a consciência dos homens?”. Tal pergunta continua extremamente atual. Não se pode ter medo de anunciar o Reino de Deus em um mundo em crise, ainda que se tenha “baixas” no caminho. Há uma “teologia de comunhão” superficial que não escancara as contradições. Não se faz unidade abafando as diferenças. Como diz o mestre Alfonso Garcia Rúbio em sua clássica obra de antropologia teológica: “só há unidade na pluralidade”. Sim, falta compreensão antropológica. Falta retornar para a Galileia. O CAMINHO de Jesus Cristo precisa ser redescoberto no meio desta crise civilizatória.


