
“O sentido último da sinodalidade é o testemunho que a Igreja é chamada a dar de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, harmonia do amor que se derrama fora de si mesma para se dar ao mundo.” (Doc Final do Sínodo n.154)
Como Povo de Deus a caminho, seguimos na trilha da sinodalidade, agora na fase de implementação das conclusões e compromissos que chegaram até nós, no Documento final do Sínodo sobre a sinodalidade e nas orientações da Secretaria Geral do Sínodo, para serem concretizadas nas igrejas locais de todo o mundo.
Os números 47 e 48 do Documento Final do Sínodo versam sobre a sinodalidade como profecia social, uma dimensão importante e necessária para que a Igreja assuma sua missão no mundo, com força de transformação social. Tarefa que nestes tempos de travessia histórica, permeados por grandes desafios socioeconômicos, socioambientais, políticos, culturais e religiosos, torna a profecia social um paradigma, uma práxis urgente e necessária.
Numa “época marcada pelo aumento das desigualdades, pela crescente desilusão com os modelos tradicionais de governança, pelo desencanto com o funcionamento da democracia, pelas crescentes tendências autocráticas e ditatoriais, pelo domínio do modelo de mercado sem levar em conta a vulnerabilidade das pessoas e da criação, e pela tentação de resolver conflitos por meio da força em vez do diálogo” (Doc. Final do Sínodo, n. 47), a prática sinodal emerge como um eloquente sinal de esperança profética.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a sinodalidade e a profecia social, estão profundamente interligadas, formando um modo de ser Igreja que caminha com o povo, ouve suas dores e esperanças e se posicionam ativamente na construção de uma sociedade mais justa. “As Comunidades Eclesiais de Base, sempre que souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade, foram verdadeiras experiências de sinodalidade…” (QA 96)
A sinodalidade, do grego “sýnodos” significa caminhar juntos, isso se traduz numa forma de ser e agir onde todos, todas: leigos/as, religiosas/os, padres e bispos e também o Papa, são chamados a participar, ouvir uns aos outros, umas às outras e discernir juntos o caminho a seguir, inspirados pelo Espírito Santo. Trata-se de uma caminhada de comunhão e participação que valoriza a contribuição de cada batizado/a para a missão evangelizadora e profética da igreja. A sinodalidade busca superar a visão de uma Igreja hierárquica e vertical, abrindo espaço para um amplo protagonismo laical e para a corresponsabilidade de todo o Povo de Deus.
A profecia social brota da leitura da realidade à luz do Evangelho, revelando que a fé não pode ser vivida de forma isolada do mundo, requer um compromisso com a transformação social. Ela é a denúncia das injustiças sociais e a defesa da vida em plenitude. Assim como os profetas e profetizas de ontem e de hoje, a profecia social é a encarnação da Palavra de Deus em contextos concretos, especialmente nas situações de exclusões, dores e sofrimento dos pobres e marginalizados. É a voz que se levanta para questionar estruturas de poder que oprimem, economias que excluem e políticas que desrespeitam a dignidade humana.
O elo entre a caminhada das CEBs com a vivência da sinodalidade como profecia social são visíveis, são faróis de luz para toda a Igreja. Um referencial a ser reassumido como um modo de toda a igreja ser. Nascidas no Brasil e em outros países da América Latina na década de 70, como resultado da recepção e concretização do Concílio Vaticano II, que convocou a Igreja a inserir-se no mundo e nele ser sinal do Reinado de Deus, como um sopro do Espírito Santo de Deus, as CEBs já nasceram sinodais: como pequenas comunidades de irmãs e irmãos que se reúnem para ler a Bíblia, refletir sobre a vida em comunidade e atuar na sociedade como profetas sociais.
O Documento final do sínodo afirma: “O modo sinodal de viver as relações é uma forma de testemunho à sociedade. Além disso, responde à necessidade humana de ser acolhido e de se sentir reconhecido numa comunidade concreta. É um desafio ao crescente isolamento das pessoas e ao individualismo cultural, que também a Igreja muitas vezes absorveu, e apela-nos ao cuidado mútuo, à interdependência e à corresponsabilidade pelo bem comum” (n.48). Desta forma não há dúvida, as CEBs são, por excelência, um espaço de sinodalidade, pois nelas as decisões são tomadas de forma participativa, com a liderança de leigos e leigas, e a partir da escuta da Palavra e da realidade local. É nesse ambiente que os membros aprendem a “caminhar juntos”, fortalecendo a comunhão e a corresponsabilidade pela missão da Igreja.
A vivência comunitária e a profunda ligação entre fé e vida impulsionam a profecia social das CEBs. Ao se reunirem nos círculos bíblicos, nas rodas de conversas formativas os membros partilham suas dificuldades e lutas diárias, como a falta de políticas públicas de moradia, saúde, educação, as situações de violências, a degradação ambiental… A partir da leitura orante e popular da bíblia, as comunidades se sentem chamadas a agir, denunciando as injustiças e se engajando em movimentos sociais, sindicatos e/ou outras formas de organização popular. A profecia das CEBs, portanto, não é teórica, mas enraizada, encarnada na vida e luta do povo, em especial das populações empobrecidas e periféricas.
Neste tempo jubilar da Igreja, em que celebramos também o jubileu de 50 anos dos encontros intereclesiais das CEBs, é tempo de afirmar que as CEBs são um laboratório de sinodalidade e profecia social. Caminhando juntos como Povo de Deus, elas são uma voz que anuncia a esperança do Evangelho e denúncia de tudo que fere o Projeto libertador de Deus. A profecia das CEBs, unida às lutas populares em prol da justiça social, da paz e da vida digna se fundamentam na Palavra de Deus e no Ensino Social da Igreja. Essa vivência é vital para a Igreja atual, recordando que a fé, a missão evangelizadora sem o compromisso com a vida dos mais pobres, sem a força de transformação social, é incompleta e por vezes, estéril. A Igreja sem comunidade torna-se uma estrutura vazia, burocrática e sem vida.
Desta forma, urge reavivar a vocação/missão das CEBs na vivência da sinodalidade e da profecia social. Como afirma o n.117 do Documento Final do Sínodo, “… a paróquia não está centrada em si mesma, mas orientada para a missão e chamada a apoiar o empenho de tantas pessoas que, de modos diversos, vivem e testemunham a fé na profissão e na atividade social, cultural e política. Em muitas regiões do mundo, as pequenas comunidades cristãs ou as comunidades eclesiais de base são o terreno onde podem florescer relações intensas de proximidade e reciprocidade, oferecendo a ocasião de viver concretamente a sinodalidade”
Empenhemo-nos, pois, em assumir a sinodalidade na prática do dia a dia. Sinodalidade não é apenas um modelo interno de organização eclesial. Ela é uma proposta de vida, um estilo que pode fecundar também a cultura, a política, a economia. Vivida em comunidade, ela faz da Igreja uma autêntica profecia social: sinal do Reino de Deus que já está entre nós!
Questões para refletir:
- Você considera sua comunidade um espaço de sinodalidade e profecia social?
- Quais as causas e lutas que hoje são apelos para a profecia social de nossa igreja?


