Frei Marcos Sassatelli, op

O Ser Humano como Ser de Práxis (1)

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

A Práxis é a categoria que ocupa o lugar central – é o eixo – da Ética (ou, Antropologia ética) filosófico-teológica da Libertação.

A Práxis é o Ser humano – ser pluri-dimensional e pluri-relacional – “sendo”, “vindo-a-ser” (“se fazendo”, “acontecendo”); ela é o Ser humano “sendo conscientemente”, ou seja, “sendo se relacionando” e – ao mesmo tempo – “se relacionando sendo”. No “ser se relacionando”, a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-dimensional; no “se relacionar sendo”, a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-relacional. 

Em outras palavras, a Práxis é o modo do Ser humano ser-no-mundo-com-o-mundo (a irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum) conscientemente.

Portanto, a Práxis “não é um modo, mas o modo de ser-no-mundo” do Ser humano; ela é “o modo intramundano que reúne todo o ser do Ser humano”; “o modo essencial de ser atualmente como Ser humano em seu mundo”; “o modo do Ser humano existir; “o modo pelo qual o Ser humano se lança no mundo e se transcende nele” (“o modo de sua transcendência”).

A Práxis “é atualidade no mundo”. A Práxis, “como atualidade no mundo, é a mobilidade mesma do Ser humano, é seu ser em ato, é simplesmente estar-sendo Ser humano. Esse estar-sendo é sempre de alguma maneira, e neste sentido mesmo o pensar é um modo de Práxis. E o fato de ter algo diante dos olhos como um ser pensado é um modo de ser atualmente no mundo (…); é um modo de Práxis (…)” (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética. Loyola – Unimep, São Paulo – Piracicaba, 1982, p. 42, 88-90). 

Sendo a mobilidade mesma do Ser humano seu ser em ato, a Práxis é “a ‘totalidade estruturada das ações humanas’ (…). Neste sentido a teoria surge. A Práxis segunda ou mera ação decidida é posterior ao ato teórico e se integra como um momento na totalidade da Práxis a priori” (DUSSEL, E. Filosofia da Libertação. Loyola – Unimep, São Paulo – Piracicaba, 1980, p. 240, nota 5).

Em suma, “a Práxis é a Vida do Ser humano na totalidade de suas determinações reais”. “Ela não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade” (CHATELET, F. Logos e Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972, p. 215).

A Práxis,”sendo o modo específico de ser do Ser humano, com ele se articula de modo essencial, em todas as suas manifestações; e não determina apenas alguns de seus aspectos ou características. A Práxis se articula com todo o Ser humano e o determina na sua totalidade”. Em poucas palavras, a Práxis “é a esfera do humano” (KOSIK, K. Dialética do Concreto. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976², p. 202).

Pela Práxis, o Ser humano não só atua (age conhecendo e/ou conhece agindo), mas também tem consciência (sabe) que atua. 

Enfim, o Ser humano “é real, efetiva e atualmente, quando existe, quando está em seu mundo presente pela Práxis”. Por isso, “a morte indica a impossibilidade da Práxis, o radical não poder mais ser-no-mundo” (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 90).

Ora, se a Práxis é atividade especificamente humana ou atividade consciente, podemos dizer que “toda Práxis é atividade, mas nem toda atividade é Práxis” (VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 185). 

Em geral, por atividade entende-se aquela atividade (ou conjunto de atividades) em virtude da qual um agente (sujeito ativo) atua sobre uma determinada matéria-prima, para conservá-la ou transformá-la (modificá-la). Não especifica ainda de que tipo de atuação se trata, qual é a natureza da matéria-prima, nem qual é o resultado (o produto) desta atividade. 

Assim entendida, “atividade opõe-se à passividade, e seu âmbito é o da efetividade e não o do meramente possível. O agente é o que age, o que atua, e não o que apenas tem possibilidade ou está em disponibilidade para atuar ou agir. Sua atividade não é potencial, mas sim atual” (Ib., p.186).

(Para uma visão histórica do conceito de “Práxis”, cf. KONDER, L. O futuro da Filosofia da Práxis. O Pensamento de Marx no século XXI. Paz e Terra, São Paulo, 1992, p. 97-128. Cf. também PETROVIC, G. “Práxis”. Em: BOTTOMORE, T. (Org.). Dicionário do Pensamento Marxista. Zahar, Rio de Janeiro, 1988, p. 292-296. E ainda GOZZI, G. “Práxis”. Em: BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. e PASQUINO, G. (Orgs.). Dicionário de Política. UNB, 1991, p. 987-992).

(Continua no próximo artigo)

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

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Goiânia, 05 de dezembro de 2025

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