(Continua o tema do artigo-coluna anterior – parte 4)
A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) é – para o Ser humano – “o modo de ser-no-mundo (histórica e meta-historicamente) prático-teórico”, ou seja, “o modo prático de ser-no-mundo” que – direta ou indiretamente – integra “o modo teórico de ser-no-mundo”. A Práxis é entendida aqui como Prática teórica (como Teoria prática, veremos depois), ou seja, como Prática dialeticamente unida à Teoria. A ênfase é colocada na Prática, na Ação como atitude humana concreta frente à realidade.
“A atitude prática não é simplesmente ateórica no sentido de que não tenha nenhuma compreensão do que acontece no mundo. A diferença entre o prático e o teórico não consiste em que o primeiro age e o segundo contempla. A conduta prática, a atitude existencial, possui, certamente, uma compreensão de tudo o que se apresenta dentro do mundo; sua atitude, porém, não é teórica, mas cotidiana, existencial” (DUSSEL, E. Para uma Ética da Libertação latino-americana: I – Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 42)
A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) comporta sempre certos conhecimentos, como, por exemplo: um conhecimento da realidade na qual se quer atuar (para conservá-la ou transformá-la); um conhecimento dos meios a serem utilizados (as técnicas exigidas em cada Prática ou Ação humana); um conhecimento da experiência feita e elaborada anteriormente, que serve de referencial teórico para determinada atividade; um conhecimento dos objetivos (finalidades) da atividade pela antecipação ideal (intelectual) dos resultados da mesma, que têm de corresponder às condições (necessidades) objetivas da realidade e ao nível de consciência das pessoas envolvidas (cf. VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 240).
A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) – por ser histórica e meta-histórica – é sempre “comprometida” e nunca “neutra”. Tratamos aqui de um “comprometimento” ou “não-neutralidade” da própria Práxis prático-teórica enquanto tal (em seus aspectos externos e internos); de um “comprometimento” ou “não-neutralidade” práxica (prático-teórica).
Podemos dizer que a Práxis prático-teórica (por ser praxicamente “comprometida” e “não-neutra”) é Práxis “desde o mesmo” ou Práxis “desde o outro”.
Agora, não vamos fazer nenhum juízo ou valoração ética (veremos isso depois), mas somente analisar e interpretar – “filosófico-teologicamente” – a Práxis prático-teórica “desde o mesmo” ou “desde o outro”.
A Práxis prático-teórica “desde o mesmo” (“a partir do mesmo”, “do lugar do mesmo”), é a Prática ou Ação humana que se projeta e se processa (acontece) “comprometida” com o “mesmo” histórico: social (socioeconômico-político-ecológico-cultural-religioso) e individual (corpóreo, biopsíquico, espiritual ou pessoal) e meta-histórico: meta-social e meta-individual.
Em outras palavras, é a Prática ou Ação humana que se projeta e se processa “comprometida” com a “ordem estabelecida” (statu quo), ou seja, com o Sistema vigente, que é hoje o Sistema Capitalista neoliberal ou ultraneoliberal.
(O Sistema do Socialismo real tornou-se, na realidade, um Capitalismo de Estado. Apesar disso – para a maioria das pessoas, ao menos do ponto de vista socioeconômico – ele tem diversas vantagens sobre o Sistema Capitalista propriamente dito).
No sistema capitalista neoliberal ou ultraneoliberal, o sujeito primordial da Prática ou Ação humana é a classe dominante, proprietária dos grandes meios de produção e detentora do poder econômico, político, ecológico, cultural e religioso.
A classe média é formada pelos médios proprietários e (podemos dizer hoje) pelos assalariados de alto poder aquisitivo.
A classe trabalhadora (ligada diretamente à produção) é formada pelos pequenos proprietários, trabalhadores/as autônomos, trabalhadores/as assalariados e – por extensão – toda a classe dos assalariados, prestadora dos mais diferentes serviços.
No sistema capitalista neoliberal ou ultraneoliberal dominante, a classe média e a classe trabalhadora são duas classes socialmente (ou estruturalmente) subordinadas (em maior ou menor grau) aos interesses da classe dominante.
Social e individualmente falando, a Prática da classe média e da classe trabalhadora, em sua maioria, é também – do ponto de vista objetivo e não sempre do ponto de vista subjetivo (intencional) – uma Prática “desde o mesmo”, ou seja, uma Prática “comprometida” com o sistema dominante, contribuindo para sustentá-lo (defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.
Essa é a nossa realidade, mas a esperança nunca morre! A possibilidade de superar e sair dessa situação existe. Cabe às Organizações Sociais Populares (Movimentos Populares, Partidos Políticos Populares, Sindicatos de Trabalhadores/as, Organizações de Mulheres, Entidades de Estudantes, Comissões de Direitos Humanos, Comissões de Justiça e Paz e muitas outras) lutarem unidas e organizadas para fazer acontecer um Novo Projeto de Sociedade e de Mundo.
Para os que somos Cristãos e Cristãs, esse Novo Projeto é o próprio Reino de Deus acontecendo no mundo com o mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. Não sejamos omissos! Lutemos unidos/as e organizados/as!
(No próximo artigo-coluna, continuará o mesmo tema: parte 5)
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia, 14 de abril de 2026
