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Tempo da verdadeira ministerialidade

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

O Ano Jubilar, vale a pena insistir, é esse tempo especial da graça de Deus para nos renovarmos a partir do Evangelho. Portanto, é o momento favorável para implementar as propostas renovadoras do sínodo. Nesse sentido, a partir do Documento Final do Sínodo (DF), seguimos apresentando pontos fundamentais para essa renovação da Igreja. Hoje, refletiremos sobre a ministerialidade. São Paulo já escreveu que “há diversos dons, mas o mesmo Espírito; existem diversos serviços, mas o mesmo Senhor; e existem diversas atividades, mas o mesmo Deus que opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é dada a cada um para o bem comum” (1Cor 12,4-7). A Igreja existe para servir na construção do Reino de Deus, ou seja, a vontade do Senhor acontecendo entre nós, ele reinando no mundo. E esse reinado toca diversos aspectos e dimensões da vida, se depara com diferentes desafios. Logo, a forma de servi-lo também é diversa e plural.

Assim, o Espírito Santo nos dá diferentes dons (habilidades) que se traduzem em diversos carismas e ministérios (formas concretas de viver os dons), como catequistas, animadores de comunidades, ministros da Palavra e da Eucaristia, zeladores da limpeza, cantores e tocadores, coroinhas, membros das diversas pastorais e movimentos. Tudo isso a serviço do Reino de Deus. Contudo, apesar de serem tão diversos esses dons e ministérios, por um conjunto de razões (históricas, teológicas, institucionais), o ministério ordenado ganhou um destaque que em muitos momentos escanteia os demais serviços. E, então, acontece uma preocupante substituição. Em vez da ação da Igreja ser pensada a partir e em vista do Reinado de Deus, ela é pensada a partir e em função do ministério ordenado. Para tudo tem que ter autorização do padre, porque ele é tido como o “dono” daquela Igreja. Até “posse” da paróquia ele toma. Seu retrato tem que estar em todas as capelas, porque ele é “a paróquia”. Ele, inclusive, deve aparecer no centro as fotos, de preferência num degrau mais elevado, porque ele “é o centro”. O calendário clerical, isto é, as datas importantes para o padre, ganha quase tanto destaque quanto as datas do ano litúrgico. É muita festa e celebração para o ministro ordenado (ordenação, primeira missa, “posse”, dia do padre, domingo do Bom Pastor, aniversário de vida). As grandes decisões da paróquia são tomadas, muitas vezes, sem nem consultar as comunidades. Compra, vende, reforma, tira dinheiro daqui e dali e o povo que se vire em arrecadar para pagar. Sem falar que os grandes gastos paroquiais são com o padre (plano de saúde, previdência, gasolina, casa paroquial [feira, internet, luz, água]).

Isso constitui “o clericalismo, entendido como uso do poder em benefício próprio e distorção da autoridade da Igreja que está ao serviço do Povo de Deus. Exprime-se sobretudo nos abusos sexuais, econômicos, de consciência e de poder por parte dos ministros da Igreja” (DF 74). Por isso, numa meditação no início do caminho sinodal, o papa Francisco denunciou que “às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o ‘patrão da barraca’ e não o pastor de toda uma Igreja que está avançando”; por isso, insistiu que tal situação “requer a transformação de certas visões verticalizadas, distorcidas e parciais sobre a Igreja, o ministério presbiteral, o papel dos leigos, as responsabilidades eclesiais, as funções de governo, etc.”. Este clericalismo, por sua vez, está na cabeça dos leigos. Eles assumiram e defendem essa mentalidade tão contrária ao Evangelho de que o padre tem mais é que mandar. 

Os ministérios na Igreja são para o crescimento do Reinado de Deus e todos têm a mesma dignidade que vem do batismo e, como insiste o Sínodo, “não há nada mais elevado do que esta dignidade” (DF 21). Mas isso é muito difícil de entender. Tanto pela profunda estrutura clerical e autorreferencial que foi sendo construída na Igreja ao longo dos séculos, quanto pela pregação atual que, em sua maioria (presencial ou pelas mídias religiosas), reforça essa visão. O povo é ensinado a pedir o tempo todo a bênção do padre, a beijar suas mãos, a lhe chamar de “padre” e de “senhor”, pois parece que ele tem mais Deus que os demais. Todos receberam no batismo alguns gramas do Espírito Santo e na ordenação se recebeu alguns quilos ou toneladas. Todos fomos ungidos pelo Espírito no batismo e podemos abençoar. Por isso foi tão significativo que, no dia de sua eleição, antes de abençoar o povo, o papa Francisco se inclinou para que o povo rezasse por ele e o abençoasse. Além disso, ele mesmo relativizou muito os títulos ou formas ostentosas de se referir aos ministérios. Escrevendo aos novos cardeais em 2024, disse: “rezo por ti, a fim de que o título de ‘servidor’ – diácono – ofusque cada vez mais o de ‘eminência’”. Inclusive, é bom não perder de vista que ser cristão, ser seguidor de Jesus, vem antes que qualquer ministério específico (no tempo e na importância); e ninguém fica se chamando de cristão José, cristã Joana. Santo Agostinho já afirmou: “aterroriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco, sou cristão. Aquele é nome do ofício recebido; este, da graça; aquele, do perigo; este da salvação”. E tudo isso porque foi Jesus quem ensinou a não deixar que nos chame de mestre, pai ou guia, pois todos somos irmãos e irmãs (Cf. Mt 23,8-10).

Por fidelidade ao Evangelho, é tempo dos ministérios na Igreja serem exercidos de forma nova. Não pela imposição e centralização, como tanto acontece: “sabeis que os que são considerados como chefes das nações, as dominam, e seus grandes as tiranizam. Entre vós, porém, não há de ser assim” (Mc 10,42-43). Nesse sentido, constata-se que “do processo sinodal emergem, em particular, algumas exigências concretas às quais é preciso dar resposta de modo adequado aos diversos contextos: a) uma participação mais ampla dos Leigos e Leigas nos processos de discernimento eclesial e em todas as fases dos processos de decisão (elaboração e tomada de decisões); b) um acesso mais alargado dos Leigos e Leigas a cargos de responsabilidade nas dioceses e nas instituições eclesiásticas, incluindo seminários, institutos e faculdades de teologia, em conformidade com as disposições já existentes…” (DF 77). Se em Roma, mulheres (religiosas ou leigas) e homens leigos estão assumindo dicastérios e outros postos de liderança, nas dioceses e institutos religiosos, os grandes postos, coordenações, institutos são presididos por clérigos. É uma inversão ao caminho do Sínodo proposto por Francisco e continuado por Leão. Afinal, é um caminho da Igreja, não de um papado específico. 

“Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). Esse Ano Jubilar é o momento propício para dar novos passos na renovação da Igreja a partir do caminho sinodal, cuja fase de implementação se estenderá pelo menos até 2028, mas cujos frutos devem perdurar. É tempo de assumirmos a verdadeira ministerialidade. É tempo de assumirmos a igual dignidade batismal, exercendo os diversos carismas na construção do Reinado de Deus.

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