Tempo de prestar contas e avaliar

Somos seguidores e seguidoras de Jesus para continuar no mundo sua missão de fazer o Reino de Deus acontecer. Nessa missão, colaboramos de diferentes modos a partir dos diversos carismas e ministérios que exercemos, todos a serviço do Reino. Faz parte desse caminho, principalmente neste tempo jubilar, nos fazermos algumas perguntas fundamentais: Em que medida estamos sendo fiéis à nossa missão? Nosso agir, enquanto Igreja, está nos fazendo mais semelhantes a Jesus? As decisões tomadas são coerentes com o Evangelho? Estamos cumprindo tudo que deveríamos fazer pelo Reino? Estamos dando o melhor de nós? 

Nesse sentido, o Sínodo nos recorda que “a escuta da Palavra de Deus é o ponto de partida e o critério de todo o discernimento eclesial” (DF 83). Isso nos mostra que o critério para as decisões e ações da Igreja não é o simples resultado de votações ou de decisões coletivas, mas a escuta da Palavra de Deus, sobretudo, do Evangelho de Jesus. Toda a pastoral da Igreja deveria estar pensada a partir do Senhor. Por isso, tanto se insiste que a Igreja não pode se confundir com um regime democrático, porque a base de suas decisões não deve ser a simples vontade da maioria, mas o Evangelho. Contudo, o Sínodo defende também que o discernimento da Palavra de Deus não pode ser feito apenas pelo ministro ordenado, mas por todos os fiéis, pois todos acolheram o Espírito Santo pelo Batismo e são ungidos para ouvir, anunciar e viver segundo a Palavra. Desse modo, a Igreja também não pode se confundir com um regime monárquico onde um decide tudo sozinho. Desse modo, afirma-se que “a autoridade pastoral tem o dever de escutar aqueles que participam na consulta e, por conseguinte, não pode continuar a atuar como se não os tivesse escutado… Na Igreja o exercício da autoridade não consiste na imposição de uma vontade arbitrária” (DF 91). 

Mas o que vemos tantas vezes é essa vontade arbitrária acontecendo, sem escutar o povo ou ignorando qualquer conselho recebido. Assim, o Sínodo afirma que “se mostra oportuna uma revisão das normas canônicas em chave sinodal, que clarifique tanto a distinção como a articulação entre consultivo e deliberativo, e esclareça as responsabilidades de quem participa nos processos de decisão nas suas várias funções” (DF 92). Pois do jeito que está, a participação efetiva dos diversos agentes de pastoral nas decisões é mínima. Conselhos são constituídos por aqueles mais próximos dos ministros ordenados e que, possivelmente, sempre concordarão com ele. Além disso, muitos conselhos nem sequer são consultivos; quando existem, são meramente comunicativos. Tudo já foi decidido pelo padre, o conselho é só (quando muito) informado do que acontecerá. 

Nesse caminho não sinodal em nossas realidades eclesiais, surge a necessidade de assumir outro ponto destacado pelo Sínodo que é a cultura de prestação de contas. Sua falta “baseia-se no pressuposto implícito de que aqueles que detêm a autoridade na Igreja não devem prestar contas das suas ações e das suas decisões, como se estivessem isolados ou acima do resto do Povo de Deus” (DF 98). E não estão! As lideranças na Igreja, sejam padres, bispos, coordenadores de comunidades, pastorais ou movimentos têm sim que prestar contas de sua ação. Além do mais, “não se deve fazer apelo à transparência e à prestação de contas apenas quando se trata de abusos sexuais, financeiros e de outro gênero… Dizem também respeito ao estilo de vida dos pastores, aos planos pastorais, aos métodos de evangelização e às modalidades como a Igreja respeita a dignidade da pessoa humana, por exemplo, no que respeita às condições de trabalho nas suas instituições” (DF 98). Prestar contas tem a ver com mostrar em que medida estamos cumprindo com a missão abraçada e isso toca vários aspectos da vida da Igreja.

Por isso, ligado a prestação de contas está a ideia de avaliação. A mesma “permite evidenciar os aspetos positivos e as áreas que podem ser melhoradas nas ações daqueles que têm responsabilidades ministeriais… ajuda a Igreja a aprender com a experiência, a recalibrar os planos de ação e a permanecer atenta à voz do Espírito Santo, concentrando a atenção nos resultados das decisões em relação à missão” (DF 100). Trata-se de perceber em que medida estamos nos passos de Jesus. Sua vida é nosso critério maior de avaliação. Esta festa de padroeiro, este evento, esta pastoral, este movimento está nos fazendo amar mais como Jesus amou? Está nos fazendo mais parecidos com o Senhor? Se não tais ações não estão, precisam ser revistas. Se há aspectos incoerentes com a vida de Jesus, devem ser corrigidos. Mas, infelizmente, as avalições em nossas Igrejas são bem capengas. Primeiro, não são sinceras, pois como o padre é o primeiro responsável, muitos acham que criticar algo é criticá-lo diretamente e nem todos os líderes estão abertos a críticas. Segundo, os critérios de avaliação geralmente são econômicos ou a quantidade de gente reunida. Ou seja, o Evangelho fica em terceiro, quarto, quinto plano.

Uma renovação sinodal da Igreja passa por uma maior participação dos diversos membros do povo de Deus nas decisões, bem como pelo fortalecimento da cultura de prestação de contas e avaliação, sobretudo pastoral. Para isso, o Sínodo insiste na necessidade de fortalecer os conselhos pastorais e econômicos, mas também realizar uma prestação de contas anual do financeiro e da pastoral (Cf. DF 102). Além disso, o Sínodo também aponta para o fortalecimento da comunidade como caminho para sermos uma Igreja mais sinodal. Isso porque temos uma séria crise do senso comunitário hoje. Vemos a pregação, os sacramentos, o ser Igreja como aspectos exclusivamente pessoais. São muitos que personalizam as comunidades: é a capela de fulano, a igreja de sicrano. Há realidades em que famílias são literalmente donas de capelas onde acontecem celebrações “exclusivas”. Até os sacramentos também são, tantas vezes, tomados como se fossem de indivíduos isolados: São missas, batizados, casamentos “particulares” realizados ao gosto de quem pede, ou pior, de quem paga. Esses momentos até reúnem muita gente por razões pessoais (são próximos de fulano e sicrano), mas os momentos propriamente comunitários, ao contrário, vão sendo cada vez mais esvaziados.

Por essa razão, o Sínodo recorda que, “em muitas regiões do mundo, as pequenas comunidades cristãs ou as comunidades eclesiais de base são o terreno onde podem florescer relações intensas de proximidade e reciprocidade, oferecendo a ocasião de viver concretamente a sinodalidade” (DF 117). É na comunidade que se desenvolvem verdadeiros laços fraternos e duradouros. Os eventos são importantes para animar a caminhada, mas é na pequena comunidade que esta caminhada acontece, se fortalece e cresce. A Igreja não pode viver de eventos. Ela vive da Palavra de Deus encarnada na vida das comunidades gerando fraternidade e solidariedade. Estamos nos aproximando do fim do Ano Jubilar, mas o impulso missionário que ele nos deu para assumir a renovação sinodal, para sermos cada dia mais fiéis a missão deve continuar. “Agora é tempo de ser Igreja, caminhar juntos, participar”!

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