Tempo de renovação sinodal

“Aquele que está sentado no trono declarou: ‘Eis que faço novas todas as coisas’” (Ap 21,5). Essa palavra do Apocalipse expressa muito bem o desejo do Senhor de criar uma nova realidade de vida, justiça e paz em meio a tanta dor, tristeza, violência e morte. O mundo precisa ser transformado, pois nele não se realiza ainda plenamente a vontade de Deus revelada em Jesus. A Igreja, como comunidade dos seguidores e das seguidoras de Jesus, tem a missão de lutar por essa transformação evangélica do mundo. Para isso, ela mesma precisa se deixar transformar pelo Senhor, pois há também muita mundanidade, isto é, muitos sinais que negam a vontade de Deus. A Igreja precisa sempre se renovar, se transformar.

O Jubileu, como tantas vezes foi repetido, é um tempo especial da graça do Senhor para a renovação. A Igreja que está nesse profético processo sinodal, agora em sua fase de implementação, precisa sair desse período jubilar mais renovada e disposta a seguir nesse caminho de renovação. O Jubileu é um tempo delimitado, mas a sua experiência bem vivida pode e deve continuar, pois os frutos do Espírito colhidos nele são permanentes. Assim, o Jubileu termina e devemos nos perguntar: Sairemos diferentes dele? Demos passos na renovação da Igreja? Somos um pouquinho mais sinodais?

A renovação assusta. Mudar sempre é difícil. E há setor na Igreja que, até com honestidade e boa vontade, teme que essa ânsia por mudanças acabe levando a perda do essencial. Há outros setores que temem a renovação sinodal por outra razão, não por amor a Igreja, mas por medo de perder o poder. O Papa Francisco já denunciou esse tipo de cristão e deu um nome para isso: “O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal” (EG 93). Outros afirmam que a Igreja não precisa mudar ou não pode mudar. Quem não aceita a Igreja como está, que saia dela. Ou ainda dizem que, quem muda são as pessoas, a Igreja é sempre a mesma, como se a Igreja não fosse o povo de Deus. 

O Papa Francisco, no seu grande documento Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), escolheu como tema do seu primeiro capítulo “A transformação missionária da Igreja”. Expressou, assim, que a Igreja precisa mudar, precisa se transformar, porém, tal transformação não se dá de qualquer jeito ou em vista de qualquer propósito, mas em vista da missão. Por isso, afirma: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão” (EG 25). E ainda lembrou que “o Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação” (EG 26). Desse modo, expressou com toda a convicção: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27). No início do caminho sinodal em 9 de outubro de 2021, ele lembrou que “esta afirmação ‘fez-se sempre assim’ é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. Quem se move neste horizonte, mesmo sem se dar conta, cai no erro de não levar a sério o tempo que vivemos. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16)”. 

A Igreja precisa mudar. Não por moda, não para atrair mais gente, mas para ser mais fiel ao Evangelho respondendo adequadamente aos desafios atuais da missão. O Documento Final do Sínodo afirma justamente que, no coração do caminho sinodal, “há um apelo à alegria e à renovação da Igreja no seguimento do Senhor, no empenho ao serviço da sua missão, na procura dos modos para lhe ser fiéis” (DF 3). E afirma que “a sinodalidade é um caminho de renovação espiritual e de reforma estrutural para tornar a Igreja mais participativa e missionária” (DF 28). Por isso, expressa que “sem mudanças concretas a curto prazo, a visão de uma Igreja sinodal não será credível e isso afastará os membros do Povo de Deus que retiraram força e esperança do caminho sinodal” (DF 94).

Não podemos sair desse Ano Jubilar do mesmo jeito. Temos que ser uma Igreja que vive mais a vida em comunidade, priorizando sempre mais os laços fraternos, o amor aos marginalizados, o anúncio do Reino de amor e paz, a celebração acolhedora e participativa da fé. Devemos ser uma Igreja mais participativa, onde os leigos, especialmente as mulheres, tenham seus carismas respeitados e seu protagonismo assumido. Devemos ser uma Igreja que pense sua pastoral a partir e em função do Reino de Deus, não a partir e em função dos ministros ordenados ou de arrecadações financeiras. Por isso, fazemos nosso o sonho do querido Papa Francisco que não viveu aqui para celebrar o fim do Jubileu, mas junto de Deus intercede por nós para assumirmos essa renovação sinodal em vista da maior fidelidade à nossa missão: “Eu continuo a cultivar um sonho para o futuro: que nossa Igreja seja leve, humilde e serva, com os atributos de Deus, e por isso também terna, próxima e compassiva. Devemos avançar com muitas novidades, com muitos projetos. Lembremos, por exemplo, o Jubileu de 2025, portador de um grande sopro de fé, e também da oportunidade de redescobrir o clima da esperança”.

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