Carlos JardelColunistas

CEBs: Guardiãs da memória ou geradoras de futuro?

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

Na coluna anterior (leia aqui), tratei do esgotamento das CEBs como forma histórica de organização, marcado por mudanças estruturais na sociedade que dissolveram a base social que lhes dava sustentação. Agora, o passo seguinte é encarar um ponto ainda mais sensível. Pois o problema não é apenas estrutural, é também interno. Há um incômodo que muita gente evita dizer em voz alta, mas as Comunidades Eclesiais de Base correm o risco de se tornarem guardiãs de uma memória, e não mais geradoras de futuro. E isso não se explica apenas pela falta de juventude. A raiz é mais profunda. Trata-se da dificuldade real de redistribuir poder, rever métodos e admitir que o mundo mudou, e rápido demais para estruturas que, em muitos casos, continuam operando como se nada tivesse mudado.

Aqui, a análise sociológica ajuda a tirar o debate do campo da opinião. Como já apontam leituras críticas da modernidade tardia, pense em autores como Zygmunt Bauman e Manuel Castells, vivemos um tempo em que, nas palavras de Bauman, “as relações escorrem”, marcadas pela fluidez e pela fragilidade dos vínculos; enquanto Castells destaca que “o poder se organiza em redes”, deslocando os antigos centros estáveis de organização social. Isso não é um detalhe. É uma mudança de base. As CEBs nasceram num contexto de maior estabilidade territorial, convivência contínua e construção paciente de laços comunitários. Hoje, a vida é atravessada por mobilidade, precariedade e conexões intermitentes. O modelo clássico de comunidade simplesmente não encaixa mais com a mesma facilidade.

Mas reconhecer isso não basta. Porque há um outro nível do problema, mesmo onde ainda há base, muitas vezes não há abertura.

As CEBs nasceram como ruptura. Inspiradas pelo Concílio Vaticano II e impulsionadas pela Conferência de Medellín, enfrentaram o clericalismo e reinventaram a Igreja a partir do povo. Colocaram os pobres no centro, romperam com estruturas rígidas, ousaram. Mas há uma ironia desconfortável que precisa ser encarada, e me perdoem a franqueza da visão, mas quem nasceu para romper, hoje, em muitos casos, resiste a ser rompido.

A dificuldade geracional não é apenas falta de juventude. É bloqueio de circulação de poder. Lideranças históricas, forjadas na luta, na repressão e na resistência, se tornaram referências incontestáveis. E justamente por isso, difíceis de serem questionadas ou substituídas. O que era autoridade construída na prática vira, pouco a pouco, autoridade cristalizada.

E aqui entra uma provocação necessária à própria Teologia da Libertação. Ela sempre insistiu que a fé cristã é prática histórica, encarnada na realidade, comprometida com a transformação. Mas o que acontece quando o método vira rito? Quando a análise se repete sem mediação com o presente? Quando a linguagem já não dialoga com os sujeitos concretos de hoje?

O risco é evidente, a teologia que nasceu como libertação pode se tornar tradição… sem libertação.

Gustavo Gutiérrez insistia que não existe teologia verdadeira sem prática histórica. E prática histórica não se repete, ela se reinventa. Quando isso não acontece, o discurso permanece, mas perde densidade transformadora. Vira identidade de grupo, não força de mudança.

Enquanto isso, fora das estruturas, a realidade segue outro ritmo. As juventudes periféricas não estão despolitizadas. Estão politizadas de outro modo. Operam em rede, articulam causas de forma mais fluida, priorizam ação direta, constroem pertencimento por outras vias. Menos reunião longa, mais mobilização rápida. Menos centralização, mais circulação.

E aqui surge uma pergunta incômoda, mas inevitável. As CEBs ainda querem formar novos sujeitos históricos ou apenas continuadores de um modelo já pronto?

Porque há diferença. E ela é decisiva.

Formar continuadores é mais confortável. Reduz conflito, preserva identidade, mantém controle. Mas também bloqueia o novo. E sem novo, não há libertação possível.

Se quiserem permanecer como força transformadora, as CEBs terão que enfrentar aquilo que sempre exigiram das estruturas que criticaram, no caso, conversão. Não uma conversão retórica, mas concreta, pastoral, geracional e simbólica. Isso implica perder controle, aceitar deslocamentos, abrir espaço real para novas lideranças, inclusive aquelas que não reproduzem o roteiro tradicional. E isso não é um detalhe organizativo. É uma escolha política e teológica.

Porque, no fundo, a questão é simples e dura. Ou as CEBs voltam a ser processo aberto, arriscado, inacabado, ou se consolidam como memória organizada de um tempo que já passou.

A base que um dia reinventou a Igreja precisa agora decidir se terá coragem de se reinventar novamente. Caso contrário, corre o risco de se tornar exatamente aquilo que sempre denunciou, uma estrutura que fala em nome do povo, mas já não caminha com ele.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

Botão Voltar ao topo