
As guerras sempre acompanharam a humanidade. Desde pequenos conflitos locais até as grandes guerras mundiais. As desculpas dadas são muitas, mas as razões de fundo são sempre as mesmas: poder, dinheiro, dominação. O imperialismo está por trás de muitos conflitos. Sempre, na história, alguma nação se destacou por um tempo quanto à riqueza e ao poder militar. A tendência era ampliar seu território ou ao menos sua influência subjugando outras nações das mais diversas formas. O imperialismo estadunidense é a manifestação mais escrachada atualmente disso. E como todo império, os Estados Unidos também usam da religião como legitimação de suas atitudes. Na verdade, o imperialismo é uma das muitas manifestações da idolatria, ou seja, da adoração a falsos deuses.
Os profetas em Israel estavam muito atentos a interferência internacional nos negócios do país e, principalmente, nas manobras dos grandes impérios de seu tempo. O profeta Oséias viveu no período em que a Assíria era a grande potência internacional, formando um gigantesco império. Em seu tempo, o reino de Israel Norte, representado simbolicamente pelo território de Efraim, se uniu a Síria e entrou em guerra contra o reino irmão, o reino de Judá. Israel Norte queria uma aliança militar para enfrentar o império da Assíria. Como Judá não quis entrar nessa aliança, acabou sendo atacado por Israel Norte. Então, Judá se aliou ao império da Assíria para ganhar a guerra. Esse conflito ficou conhecido como guerra siro-efraimita. O profeta Oséias denunciou que nenhum dos lados estava correto nem buscava realmente fazer a vontade de Deus: “Os chefes de Judá são como aqueles que roubam terras: sobre eles eu derramo a água da minha ira. Efraim é um opressor, passa por cima do direito, corre atrás da mentira” (Os 5,10-11).
Como dito, confiar na força das armas e dos impérios é uma forma perigosíssima de idolatria. Os profetas criticaram a máxima confiança que os governos e o povo depositavam nas armas, cavalos de guerras e exércitos: “Israel se esqueceu de Deus, seu criador, e passou a construir palácios. Judá, de sua parte, construiu fortalezas. Pois eu porei fogo nas cidades fortificadas e queimarei todos os seus quartéis” (Os 8,14); “Nesse dia, acontecerá – oráculo de Javé – que eu destruirei do seu meio os cavalos e farei desaparecer todos os seus carros de guerra. Destruirei as cidades fortificadas do país e eliminarei todos os quartéis” (Mq 5,9-10). Do mesmo modo, os profetas criticavam as alianças com os países poderosos e os impérios, pois trocavam Deus pela força dessas potências: “Ai daqueles que vão até o Egito em busca de ajuda e procuram apoio nos cavalos. Eles confiam nos carros porque são numerosos e nos cavaleiros porque são muito fortes, em vez de levar em consideração o Santo de Israel, em vez de consultar a Javé… O egípcio é um homem e não um deus; seus cavalos são carne e não espírito” (Is 31,1.3); “Com que facilidade você muda de rumo! O Egito será uma decepção para você, como a Assíria também foi” (Jr 2,36).
O profeta Habacuc enfrentou o império da Babilônia. O viu crescer e dominar muitas nações. Por isso, “a novidade de Habacuc consiste em que Deus aparece não como alguém que julga e condena um império, mas como aquele que julga e condena toda forma de imperialismo” (J. L. Sicre). O profeta denuncia o roubo praticado pelo império babilônico contra outras nações: “Já que você saqueou numerosas nações, o que resta dos povos saqueará você, por causa do sangue humano derramado, da violência feita ao país, à cidade e aos seus moradores… Você decretou a vergonha para a sua casa; destruindo muitas nações, você fez o mal contra si mesmo” (Hb 2,8.10). Denuncia também que a riqueza e o poder do império é fruto da exploração e opressão: “Ai de quem constrói com sangue uma cidade, e com o crime funda uma capital!” (Hb 2,12).
Muitos séculos depois, surge o livro de Daniel, já mais num estilo apocalíptico do que profético. Ou seja, nele predomina visões cheias de simbolismos, enigmas e como literatura de resistência a perseguição. Embora evoquem a figura de Daniel como se ele tivesse vivido no período do exílio (sec. 6º a.C.), o livro é do período grego (sec. 2º a.C.). Com as visões de Daniel, o livro denuncia os reinos e impérios que fizeram o povo sofrer, tais potências são simbolizadas por feras e criaturas horrendas; e anuncia também a vinda do Reino de Deus que vencerá todos os outros reinos: “Durante a noite, tive esta visão: os quatro ventos reviravam o mar imenso. Quatro enormes feras surgiram do meio do mar, cada uma diferente da outra… ‘As quatro feras enormes são os quatro reinos que surgirão na terra, mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para sempre’…” (Dn 7,2-3.17-18). Além disso, os livros proféticos dedicam vários capítulos intitulados “oráculos contra as nações” (Cf. Am 1,3-3,8; Is 13-23; Jr 46-51; Ez 25-32). São palavras de Deus transmitidas pelos profetas que denunciam os crimes e pecados dos diversos países vizinhos de Israel e Judá, bem como os pecados destes dois reinos. Tais oráculos revelam a preocupação de Deus e dos profetas com a política internacional e como está preocupação é questão religiosa, espiritual e que deve envolver qualquer pessoa que tenha fé.
Hoje não é o império assírio, babilônico, persa, grego ou romano, nem o sacro império romano-germânico, mas o estadunidense, às vezes chamado de americano, como se a América se reduzisse aos Estados Unidos ou eles fossem os verdadeiros modelos de americanos. Esse império estadunidense ganhou essa força de potência econômica e bélica, principalmente, a partir da Segunda Guerra Mundial. Sempre teve governos que seguiram sua lógica imperialista, alguns de forma mais disfarçada (geralmente do partido democrata), outros escrachadamente autoritários (geralmente do partido republicano). Mas talvez seja Donald Trump o presidente mais caricato, aquele que melhor escancarou o que é o imperialismo estadunidense. Seu primeiro mandato já foi desastroso, mas este segundo está sendo bem pior e não está nem na metade. Negacionismo climático, perseguição de minorias, especialmente imigrantes, perseguição e corte de verbas para projetos sociais e pesquisas universitárias, aumento de taxas para quase todos os países, sequestro e assassinatos de chefes de Estado, guerras, ameaça de lançar o mundo numa terceira guerra mundial. Recentemente, deu um ultimato ao Irã prometendo fazer um verdadeiro genocídio ao afirmar no dia 7 de abril: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”; e ao final da mensagem, ainda conclui blasfemando: “Deus abençoe o grande povo do Irã!”. Diante disso, o papa Leão XIV interveio afirmando categoricamente que “esta ameaça contra todo o povo do Irã” é “verdadeiramente inaceitável”. O dia terminou com o anúncio de uma trégua de duas semanas, intermediada pelo Paquistão. Mas tudo pode ser esperado de um sistema imperialista.
Quem poderá pará-lo sem criar um conflito maior? Talvez o próprio povo estadunidense que não pode ser identificado com o governo autoritário e imperialista. Podem eleger nas eleições parlamentares deste ano deputados e senadores que minimamente façam oposição a Trump e diminua seu poder que parece não ter limites. Os demais países também precisam estar unidos na defesa de sua soberania e da dignidade de seu povo. Os cristãos não podem deixar que a fé seja manipulada por esse tipo de lógica imperialista. A imagem de vários políticos e assessores orando e abençoando Trump no seu gabinete é um pequeno sinal de como a fé pode ser utilizada para justificar o que é contrário aos desígnios de Deus. Como os profetas, devemos denunciar toda força de idolatria e de imperialismo. Isso não é politicagem, não é desviar a missão da Igreja, trata-se de fidelidade a Palavra de Deus que quer vida de qualidade para o seu povo. Não serve a Deus uma religiosidade descomprometida com a justiça e o direito: “Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca” (Am 5,24). Afinal, Deus diz com muita clareza a nós ainda hoje: não suporto injustiça junto com solenidade… Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva” (Is 1,13.17). O imperialismo estadunidense atenta contra Deus. Digamos NÃO a toda forma de imperialismo!


