ColunistasRosemary Fernandes da Costa

Comensalidade: o alimento e o desejo de encontro

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

Voltemos ao tema da comensalidade, da mesa partilhada, que nos fala de nossa condição humana e biológica e necessidade de alimento para a saúde integral. A mesa compartilhada é espaço sacramental de denúncia da insegurança alimentar, mas também de anúncio das muitas dimensões humanas e ambientais que reverberam ao vivermos juntas o cuidado conosco e com a Casa Comum. 

Na coluna anterior, dizíamos que na comensalidade não existimos umas sem as outras, ou seja, o que está no centro da existência é a relação com todos os verbos encarnados que brotam dela: partilhar, cuidar, escutar, dialogar, silenciar, acarinhar, cozinhar, orar, abraçar… e tantos outros. 

Emanuel, Deus-conosco, é nosso fundamento e orientação. É a encarnação do Verbo Divino no cotidiano, na história. Como eu, você, nossas irmãs e irmãos, estamos vivendo o chamado à espiritualidade encarnada?

Nesta reflexão, queremos trazer para o centro de nossa roda, uma das muitas ‘fomes’ presentes no mundo de hoje: a fome de sentido. Se estamos atentas e empáticas com aqueles que nos rodeiam, podemos ver e sentir a dor existencial presente, perguntas latentes sobre o sentido do viver, do cotidiano. Será que a mesa em que Jesus se sentou contava com esta fome? E como podemos ser soror-fraternos nestes tempos de crise existencial?

O caminho agápico implica servir à mesa de forma a partilhar a vida, as memórias, as histórias, as dores e alegrias. Implica estar à mesa e sentir como sua a vida de cada pessoa. Implica em tomar para si a dimensão da festa, mas também a dimensão da crise. Se há uma irmã, um irmão, com fome de sentido, ela encontra eco no nosso viver, pois não estamos sozinhas. 

A Eucaristia nos convoca a essa mesa comum. Contudo, se há uma coisa que contribui para diminuir a fome de sentido, é um desejo profundo que temos: o desejo do encontro, o desejo da relação. Este é parte da vida humana, é precioso e se movimenta incessantemente.  A teóloga Hadwig Ana Maria Muller nos diz que esse desejo pode ser comparado a uma “rede em que os humanos estão ligados uns aos outros por meio de múltiplas relações – não sem os outros”. 

Mas, podemos estar pensando… as relações são sim fundamentais, mas como são complexas, e nem sempre nos falam de encontro, mas também de desencontros. Nas relações esse desejo se põe em movimento. É o movimento das alteridades dialógicas. É o movimento que nos põe a caminho, em um constante autoconhecimento e abertura à novidade radical que vem de cada encontro ou desencontro. Nas relações esse desejo se produz, se reforça, ganha novos contornos, desafios e sonhos. 

A comensalidade une pão e relação. Nossa vida possui essas duas dimensões fundamentais – o alimento e o desejo de encontro. Mesmo dependentes e frágeis, essa dinâmica nos envolve, nos seduz, mas também nos frustra e, algumas vezes, desistimos de voltar ao caminho. Seria como uma ‘anemia relacional’. Vamos ficando mais frágeis, mais amarguradas, mais fechadas, e o ‘estômago do amor’, reduz, adoece e, com ele podem vir outras patologias. Mas, voltamos à pergunta que chega em nosso peito e nos convoca… Qual o caminho?

Um deles é estarmos juntas, nos percebermos também ‘feridas e feridos’ em tantas circunstâncias. Reconhecer nossas fragilidades é se colocar à mesa, com seu jeitinho, com sua história linda e complexa. E assim, como dizia o mestre Bernhard Haring, ‘nos vulnerabilizarmos juntas’

A partir daí, demos espaço para a escuta atenta, para o exercício da humildade, da amorosidade e ela nos guiará no ‘que fazer’. Esse compromisso de comensalidade pede compartilhar a vida, visitação, olhares, paciência, silêncios e palavras, desapegos, riscos, coragem de ir além por acreditar no caminho que nos torna mais íntegras. E deixemos que também as surpresas cheguem, com sua beleza, lágrimas e sorrisos.

Mais uma vez, convidamos a olhar para as muitas tradições religiosas e não-religiosas, e ali também percebermos as formas de cuidado diante da fome do viver. Cada uma vai ter sua sabedoria, suas fontes e caminhos espirituais. Com certeza, aprenderemos muito sobre esse cuidado comum.

CURADORES FERIDOS

São assim os escolhidos de Deus.

Pessoas que trazem em si, dons e possibilidades, e ao mesmo tempo, possuem suas limitações humanas.

Pessoas que trazem em suas mãos e em seus lábios a graça de comunicar gestos, palavras de amor e de perdão, mesmo não estando livres de errar também.

São aconselhadores, pais e mães do povo de Deus, e muitas vezes não encontram pessoas com quem se abrir.

Somos curadores, e muitas vezes não conseguimos curar a nós mesmos.

Somos impulsionados a vencer nossos limites, nossos medos, mas nem sempre conseguimos vencer.

Já paramos para pensar que curadores trazem dores que não conhecemos, medos que não vemos, lágrimas que não enxugamos, feridas que não podemos curar?

Pessoas que curam, mas que também ferem…Suas feridas, seus limites, são condição para nos abraçarmos como irmãos e juntos dialogarmos no amor misericordioso daqueles que se complementam.

(fonte desconhecida)

Referências citadas:

Bernhard Haring, O Evangelho que nos cura. São Paulo: Paulinas, 1992

Hadwig Ana Maria Muller. A fome de pão e o desejo do outro. In: Fome, Pão e Eucaristia. Concilium 310/2005

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