ColunistasPadre Joaquim Jocélio

Maria, Mãe de Jesus, Companheira de nossa Caminhada

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

Maria está no coração do povo católico e é honrada também por outras Igrejas e religiões que, de distintas formas, reconhecem seu importante papel na história da salvação. A devoção a Maria sustentou e sustenta a fé do povo mais simples e não deve ser subestimada ou desvalorizada. Contudo, é preciso que seja aprofundada e refletida para que, mesmo com as melhores intenções, não se afaste do que é seu propósito: levar ao seguimento de seu Filho Jesus.

O Papa Francisco escreveu no final do seu documento sobre a Evangelização que “não é do agrado do Senhor que falte à sua Igreja o ícone feminino” (EG 285). A Igreja tem muitas referências masculinas. Tanto que o próprio Papa Francisco falou muitas vezes em “desmasculinizar” a Igreja. Expressão forte e profética. Essa é mais uma razão para não só valorizarmos devidamente a figura de Maria, mas tirarmos as devidas consequências de sua veneração. Por exemplo, a valorização da mulher na Igreja. É muito significativo que depois de Deus Pai e Filho e Espírito Santo, a pessoa mais importante na Igreja não seja um papa, um bispo, um doutor, mas uma mulher: Maria de Nazaré. Contudo, não somos totalmente cientes da profundidade disso. Muitas vezes, nós Igreja, exaltamos Maria, esta grande mulher, e somos machistas ou mesmo misógenos em nossa ação pastoral. Isso é incoerente, hipócrita e mesmo uma ofensa a Maria. 

A mulher foi, tantas vezes na história da Igreja, vista como a culpada pelo pecado, como símbolo de tentação e perdição. Contraditoriamente, essa visão se deu ao mesmo tempo em que Maria era profundamente venerada. Parecia que ela era a única exceção entre as mulheres. Mas, na verdade, a perspectiva deve ser outra. Maria nos recorda a força da mulher, a sua fé e fidelidade ao projeto de Deus. Quem neste mundo foi mais fiel ao projeto de Jesus foi uma mulher: Maria de Nazaré. Assim, a figura de Maria não pode ser usada na Igreja para justificar a submissão da mulher (controle de suas vestes, suas falas, seu comportamento), mas reconhecimento da força daquelas que mais sustentam a vida de fé de nossas comunidades e que tem em Maria o modelo de discípula.

Contudo, é bem verdade que algumas confusões acontecem quanto à devoção a Maria. Não por falta de fé, mas por inocência ou mesmo pela ausência de uma catequese mais profunda. Nesse sentido, muitos teólogos como Yves Congar e Victor Codina refletiram que na tradição da Igreja Ocidental (a nossa tradição), a figura do Espírito Santo ficou meio apagada na teologia e no imaginário do povo. Na tradição da Igreja Oriental, a figura do Espírito Santo está muito presente e vem do Espírito os aspectos femininos e maternos de Deus (misericórdia, consolo, guia, proteção, defesa etc.). Como temos muita necessidade desses aspectos femininos e maternos, nós deslocamos para a devoção a Maria vários aspectos que na teologia do Oriente são próprios do Espírito Santo: Consoladora, advogada, defensora, reveladora de Jesus, formadora de Jesus em nós, alma da Igreja, defensora dos pobres, inspiradora etc. Neste sentido, é importante recordar uma orientação da Igreja sobre a devoção à Maria: “evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro acerca da autêntica doutrina da Igreja os irmãos separados ou quaisquer outros” (LG 67). Portanto, por mais que seja na tentativa de expressar o imenso amor pela mãezinha, é fundamental cuidar da forma de fazê-lo em nossa devoção, para que não assumirmos atitudes que Maria mesma jamais iria querer.

Nesse exercício, não haverá de forma alguma desqualificação de Maria, mas melhor compreensão do seu papel na história da salvação. Inclusive, quanto a sua relação com o Espírito Santo, é bom recordar que ela foi a que mais se abriu a ele. Ela concebeu pela força do Espírito (Cf. Mt 1,20; Lc 1,35) e enchia do Espírito as pessoas com quem encontrava (Cf. Lc 1,41.44). E aquela que primeiro acolheu o Espírito em sua vida também estava com os demais discípulos e discípulas em Pentecostes quando o Espírito foi derramado sobre a Igreja (Cf. At 1,14; 2,1-13). Por isso, o teológo Victor Codina recorda que, “na tradição da Igreja oriental, o ícone de Maria é também ícone da encarnação, da Igreja e do Espírito… […] Desse modo, Maria não se converte em simples sucedâneo ou substituição do Espírito, mas em sua imagem e ícone: é uma mulher ‘pneumatizada’”, ou seja, cheia do Espírito, transformada por ele. Sem negar o lugar único e insubstituível do Espírito, Maria nos ensina a nos deixarmos guiar por ele para seguir os passos de Jesus cumprindo a vontade do Pai.

A Igreja, por sua vez, sempre buscou orientar no sentido da correta devoção à Maria. Exemplo disso é o recente documento do Dicastério da Doutrina da Fé “Mãe do povo fiel”. Sem entrar na reflexão sobre a ideia de medianeira ou corredentora (pontos mais debatidos deste documento), gostaríamos de destacar outros dois aspectos tratados por esse texto. O primeiro, é uma advertência sobre o risco de apresentar Maria como alguém que impede a ira de Deus. O segundo, é a importante recordação do papel de Maria como perfeita discípula.

Quanto ao primeiro ponto, é preocupante constatar que se criou uma compreensão de que Deus Pai ou o próprio Jesus seríam juízes implacáveis, rígidos, severos e Maria seria a advogada misericordiosa que defende o povo da ira de Deus. Quantas historinhas, inclusive contadas por santos e santas famosos, apresentam Maria como aquela que coloca para dentro do Céu almas que Deus condena, como se Deus quisesse condenar alguém. O maior exemplo disso é a cena do julgamento no filme O Auto da Compadecida. A obra, inspirada numa peça de Ariano Suassuna, é brilhante e tem, inclusive, momentos bem proféticos. Mas por retratar essa mentalidade popular, acabou reproduzindo uma visão equivocada. É como se Jesus quisesse mandar o povo para o inferno e Maria quisesse salvá-los. Como a figura do pai, geralmente, é a mais severa entre nós e a mãe aquela que tranquiliza e defende, jogamos essa mesma visão para Deus. Mas não é assim. Não se trata de um Deus severo e Maria misericordiosa. Ela é misericordiosa porque é fiel a Deus e Deus é misericórdia. Por isso, o documento da Doutrina da fé adverte: “Devem-se evitar os títulos e expressões referidas a Maria que a apresentem como uma espécie de ‘para-raios’ diante da justiça do Senhor, como se Maria fosse uma alternativa necessária diante da insuficiente misericórdia de Deus” (MPF 37b).

O segundo ponto é a recordação de que Maria é modelo de discípula, ou seja, de alguém que foi fiel à vontade do Senhor, seguindo os passos de seu Filho Jesus. Os bispos reunidos no Concílio Vaticano II recordaram que Maria é “membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade” (LG 53), afinal, ela “cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens” (LG 56). Por isso Isabel exclamou: “Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre! Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42.45). O Concílio ainda insiste que,“na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens” (LG 65).

Geralmente, Maria é lembrada em nossas comunidades mais como intercessora. O povo na hora de dor e desespero, principalmente as mães, veem nela alguém que compreende o que passam, por isso pedem sua intercessão. Não deve ser subestimada a situação do povo pobre que não tem ninguém para socorrê-lo na hora da dor e não tem ninguém para apelar a não ser para a “mãezinha do Céu que está junto de Deus”. Contudo, precisamos assumir cada dia mais este outro aspecto de Maria que, como ensina a Igreja, é muito mais importante: ela é a perfeita discípula. Ela é quem melhor nos ensina como viver o Evangelho de seu Filho. 

Assim, o documento da Doutrina da Fé repete isso com muita clareza: “Ela é ‘a primeira discípula, aquela que melhor aprendeu as coisas de Jesus’. Maria é a primeira daqueles que ‘escutam a Palavra de Deus e a põem em prática’ (Lc 11,28)” (MPF 73). Afinal, “ela é modelo de fé e caridade para a Igreja pela sua obediência à vontade do Pai, cooperação na obra redentora do seu Filho e abertura à ação do Espírito Santo. Por isso, diz santo Agostinho que vale ‘mais para Maria ser discípula de Cristo do que ter sido mãe de Cristo’. O Papa Francisco insistiu que ela ‘é mais discípula que mãe’. Maria é, definitivamente, ‘a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo’” (MPF 73)

Precisamos recuperar esse aspecto de Maria como discípula, alguém que é “companheira de nossa caminhada”, como diz o ritual de batismo de crianças. Ela caminha conosco e nos leva a seguir os passos de seu Filho. A devoção a Maria, como toda devoção, deve levar ao seguimento de Jesus na construção do seu Reino. Por isso, ensinava o Concílio que “os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes” (LG 67). Que Maria continue sempre nos acompanhando na caminhada, sendo para nós modelo de discípula fiel ao projeto de seu Filho, construindo o Reino de justiça, fraternidade e paz, lutando pela defesa da dignidade da mulher e contra todo machismo e misogenia. Por isso, nosso povo sempre canta: “Pelas estradas da vida, nunca sozinho estás. Contigo pelo caminho, Santa Maria vai. Ó vem conosco, vem caminhar, Santa Maria, vem!”.

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