ColunistasFrei Marcos Sassatelli, op

O Ser Humano meta-histórico “além da morte” (4)

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

(Continua o tema do artigo anterior – parte 4) 

Em síntese, podemos dizer: historicamente falando, é o Ser humano todo (ser histórico-social e histórico-individual: corpo, vida, espírito ou pessoa) que “morre”, isto é, que deixa a modalidade de ser histórica – em via de meta-historicização – e “passa” para a modalidade de ser meta-histórica – em sentido pleno – ou, em linguagem teológica, “ressuscita”; – meta-historicamente falando, é o Ser humano todo que “vive” (é) no Amor (Vida plena) ou no Des-amor (Morte plena). 

Tanto historicamente como meta-historicamente (em sentido pleno: “além da morte”), o Ser humano é (existe) pela “presença ontológica” (em linguagem filosófica) ou “presença criadora” (em linguagem teológica) do Absoluto (Deus), que é (existe) por si mesmo. Por isso, a existência (vida) humana – histórica, em via de meta-historicização e meta-histórica, em sentido pleno (“além da morte”) – é “dom” do Absoluto. Do ponto de vista ontológico, se Deus (o Absoluto) não fosse (não existisse), nada e ninguém seria (existiria). 

Portanto, reafirmamos que a meta-historicidade “além da morte” (na linguagem comum, usa-se também a palavra “imortalidade”, embora seja inadequada) é simultaneamente meta-historicidade social (estrutural) com dimensão individual e meta-historicidade individual com dimensão social. 

Não se pode justificar adequadamente a meta-historicidade individual, “se não se faz ver que a comunidade – que vem sendo construída na história – salva-se (realiza-se) quanto ao essencial, não obstante a ruptura da morte” (GEVAERT, J. Il Problema dell’Uomo. Introduzione all’Antropologia filosofica. Elle Di Ci, 19814, p. 277).

“Aprouve a Deus salvar (realizar) e santificar os Seres humanos, não individualmente (somente), excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em Povo (Comunidade) que O conhecesse na verdade e O servisse (amasse) santamente (perfeitamente, radicalmente)” (CONCÍLIO VATICANO II. A Igreja – LG, 9).

“Eu vim para que todos e todas tenham Vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

No Ser humano e com o Ser humano, toda a criação participa do processo de meta-historicização até à plenitude. “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8, 22-25).

O cientista (como o Físico, o Biólogo, o Psicólogo ou outro), enquanto tal, não pode provar – pela verificação experimental – e nem afirmar – com conhecimento de causa – que o Ser humano individual é ou não é um ser espiritual ou pessoal. 

Esse mesmo cientista (como vimos a respeito da “presença ontológica” ou “presença criadora” de Deus) não pode provar que o Ser humano histórico (social e individual) é ou não é um ser meta-histórico “além da morte” (aberto à transcendência plena, absoluta); que o Ser humano histórico e – com ele – o mundo todo existem (são) ou não existem (não são) pela “presença ontológica” ou “presença criadora” do Outro absoluto (Deus); e que o Outro absoluto (Deus) existe (é) ou não existe (não é) por si mesmo. 

Destas questões não temos e nunca teremos “provas científicas”. Em outras palavras, estas questões não “cabem” no nível da verificação experimental e, portanto, não podem ser conhecidas “cientificamente”; elas surgem – brotam, emergem, irrompem – da existência humana no mundo com o mundo como um todo e, para buscarmos ter delas uma compreensão sempre mais profunda – mas histórica – precisamos recorrer à inteligência reflexiva (meditativa), ou seja, ao “conhecimento filosófico” e/ou “teológico”. 

O conhecimento filosófico e/ou teológico parte do conhecimento científico (e, muitas vezes, também do conhecimento comum), incorpora seus dados, vai além dele e volta para ele (motivando e incentivando a pesquisa) num processo contínuo. É este o movimento do conhecimento (pensamento) humano (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis teórico-prática).

Por fim, o processo dialético permanente de meta-historicização “já e ainda não” e “além da morte” se dá na e pela Práxis meta-histórica (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis meta-histórica).

     (No próximo artigo, continua o mesmo tema: parte 5)

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

https://freimarcos.blogspot.com

Goiânia, 05 de outubro de 2025

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