ColunistasIrmã Eurides Alves de Oliveira, ICMSínodo para a Sinodalidade 2023

A Comunidade é o espaço sinodal por excelência

Eu sou feliz é na comunidade, na comunidade eu sou feliz!

Dando sequência às nossas reflexões sobre os processos de sinodalidade em curso, faço deste espaço, um convite para pensarmos a sinodalidade desde a pequena comunidade, lá onde “muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, vão provocando mudanças que transformam igreja e o mundo” (cf. Proverbio africano).

A eclesiologia de comunhão, participação e missão, oriunda do Concílio Vaticano II e das Conferências Episcopais da América Latina, em especial, a Conferência de Aparecida, dão relevância à dimensão comunitária da Igreja, destacando as comunidades como espaços de vivência e formação das discípulas e discípulos missionários/as a serviço da vida. Elas afirmam que a experiência de fé e compromisso com o Reino de Deus é tecida no espaço da comunidade.  As comunidades são os lugares privilegiados para os cristãos e cristãs fazerem a experiência concreta do encontro com Jesus Cristo e com irmãos e irmãs. São casas e escolas de comunhão (cf. DAp 158).

Viver em comunhão e em comunidade é essencial para a prática da sinodalidade, para o “caminhar juntos e juntas” como Igreja povo de Deus a caminho, em saída para as periferias sociais, culturais e existenciais de nosso tempo. Embora esta máxima seja uma exigência do Evangelho e esteja presente em vários documentos do magistério da Igreja, temos presenciado muitos recuos e obstáculos na caminhada da Igreja nas ultimas décadas, com a ascensão dos movimentos espiritualistas, o clericalismo, a autorreferencialidade, a alienação, o fundamentalismo religioso e político, a formação descontextualizada dos novos padres e até dos leigos/as (…), de modo que esta opção tem ficado à margem. 

O projeto da sinodalidade nos interpela a um caminho de volta à comunidade, preferencialmente às Comunidades Eclesiais de Base que, como nos dizia Dom Pedro Casaldáliga, “não é só um jeito novo de ser igreja, mas o jeito normal de toda igreja ser”. Só a partir da revitalização das CEBs, das pequenas comunidades, é que as paróquias conseguirão ser de fato sinodais: espaços de iniciação cristã, de educação e celebração da fé, inclusivas e abertas à diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de modo horizontal, participativo e corresponsável, articuladoras das diversas iniciativas pastorais existentes, atentas às diversidades, abertas a projetos pastorais abrangentes, voltados para as interpelações das realidades do povo, sendo na sociedade fermento de transformação (cf. Dap 170).

Na esteira desta eclesiologia pós-conciliar, no compasso da proposta do Papa Francisco: por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão, estamos reaprendendo a ser Igreja com traços sinodais, revalorizando a comunidade como o espaço sinodal por excelência. 

A sinodalidade é um estilo, um caminho que nos relançam e convocam para a profecia em comunidade: 

  • A profecia dos pequenos gestos e processos de comunhão e participação, recuperando a alegria de estar, rezar e celebrar juntos e juntas, como irmãs e irmãos, nas casas ou nos centros comunitários; refletindo a vida à luz da Palavra de Deus, organizando e realizando práticas de solidariedade com os mais pobres, partilhando com eles a presença, o pão, a Palavra; analisando crítica e politicamente a realidade vigente, desenvolvendo processos de formação que garantam a maturidade da fé, da vivência do discipulado missionário e do exercício da cidadania pela participação e engajamento nas pastorais e movimentos sociais. 
  • A profecia da inclusão de todos e todas: acolhendo com amor, respeito e valorização, a pluralidade e as diferenças de classes, gênero, etnia, orientação sexual, de geração e outras… 
  • A profecia do testemunho de novas relações e da construção coletiva dos processos, dos serviços e ministérios, valorizando o protagonismo dos leigos e leigas, sobretudo das mulheres.
  • A profecia de uma Igreja que não compactua com as injustiças sociais, com uma economia sem coração, com as necropolíticas reinantes nem com as estruturas eclesiásticas frias e vazias de sentido, presas aos ritos, adornos e preceitos moralizantes, que deturpam e ferem a proposta do Evangelho de Jesus de Nazaré.

O pertencimento a uma Comunidade Eclesial de Base – CEBs, nas mais diversas expressões que elas hoje têm, devido à complexidade da realidade e o sopro criativo da Divina Ruah, é uma condição inegociável para a vivência da sinodalidade. Se não houver um processo de recriação e fortalecimento das pequenas comunidades, a proposta de sinodalidade será um engodo, um evento a mais e não atingirá o objetivo de concretizar o urgente e necessário “aggiornamento” proposto e sonhado pelo Concilio Vaticano II e relançado pelo Papa Francisco, ao propor a sinodalidade como um estilo de toda Igreja ser. Sem vida em comunidade, não há como efetivamente sermos Igreja sinodal. 

A Igreja de comunhão, participação e missão se constrói como rede de comunidades, desde que haja uma integração entre todos e todas, formando um corpo articulado, num discipulado comunitário e missionário. A dimensão comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja e deve refletir o dinamismo sinodal da Santíssima Trindade. É na comunidade que vivenciamos em circularidade a ciranda da comunhão soroterna de nossa vocação comum de batizadas, batizados, filhos e filhas da Comunidade Trinitária, comunidade circular de amor, diálogo, inter-relação, unidade e comunhão, comunidade sinodal, a Melhor Comunidade

            Neste horizonte místico e profético da vida em comunidade fundamentada no mistério da Trindade e também na vivência das primeiras comunidades cristãs, urge insistir e fomentar nos processos de preparação para o sínodo sobre a sinodalidade, a necessidade de uma verdadeira conversão pastoral passando das estruturas de conservação e centralização paroquial, para uma igreja sinodal a partir das Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs, na sua raiz identitária, são comunidades místicas, missionarias e proféticas: “Reconhecemos nas CEBs o jeito antigo e novo da Igreja ser, muito nos alegraram os sinais de profecia e de esperança presentes na Igreja e na sociedade, dos quais as CEBs se fazem sujeito. Que não se cansem de ser o rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. (…) Para tanto, reafirmamos, junto às CEBs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão” (cf. EG 49).

Portanto, como nós mulheres cantamos na ciranda de nossas lutas, “essa ciranda é de todas e todos nós, para dançar ciranda, juntamos mãos com mãos…”, então, organizemos nossas esperanças, juntemos mão com mão, e juntas e juntos avancemos na construção de caminhos para que nossas comunidades sejam sinodais!

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