
Em nossas reflexões, temos sempre nos colocado diante do Mistério Divino de forma orante, à escuta e procurando pensar em respostas para nossa vida prática e pastoral. Para nós, assim se faz teologia, ou seja, não apenas como uma leitura e interpretação do grito sofrido da terra, mas, prioritariamente, como espiritualidade de encarnação.
Em nosso tempo histórico a questão central retoma o clamor que vem da terra e dos pobres. Dessa vez, esse grito ecoa não apenas desde a América Latina, mas de todo o planeta, e nos convoca a uma profunda revisão de vida, de relações, de projetos sociais, econômicos, políticos. Todos os dias temos experimentado calamidades ambientais e, aparentemente, também a ausência de uma mínima visão de fraternidade, justiça e equidade. Perplexos, sabemos que algo precisa ser revisto, contudo, a complexidade sistêmica, política e econômica, tem feito com que muitas pessoas silenciem, paralisem, não por ausência de um discernimento ético, mas devido à própria impotência diante da grandiosidade da crise na qual estamos inseridos.
Contudo, em nosso diálogo com as comunidades e com a Mãe Terra, ouvimos vozes de sabedoria dos povos originários da América Latina. Sua cosmovisão e relação ética com a Terra se tornam fontais e inspiração para nosso novo tempo de viver: é a sabedoria do Bem Viver.
Nesta breve reflexão, pensaremos em dois princípios inspiradores do Bem Viver para nossos tempos: é um princípio que dinamiza toda a vida e nos conduz a vivermos em comunhão.
Mas, antes de entrarmos nessas duas inspirações, vejamos um pouco do que é o Bem Viver. Esta é uma sabedoria secular, vivida entre os povos originários, mas despercebida pelas civilizações ocidentais colonizadas. Podemos encontrá-lo com visões e termos similares entre alguns povos originários das regiões andinas, especialmente entre os Aimará (Bolívia), os Quéchua (Bolívia e Equador), e também entre os povos Guarani (Brasil, Paraguai). Para os Aimará (Bolívia) ela é a suma qamaña; para os Quéchua (Bolívia e Equador), é sumak kawsay; para os Guarani (Brasil, Paraguai), é teko kavi e ñandereko. Também encontramos experiências semelhantes no Peru, Equador, no Chile e Argentina, e ainda na América Central, em povos indígenas da Amazônia e em outros povos espalhados pelo nosso chão comum.
Se trata, portanto, de uma cosmovisão ancestral, uma sabedoria milenar de que os vínculos entre a terra e a natureza estão interligados e, se quebrados, todo o sistema adoece. Desta atitude de reverência e respeito brotam as relações que respeitam os ciclos vitais de cada espécie e a compreensão de partilha, interação e comunhão.
Então, para esses povos, esta sabedoria não é uma alternativa social, econômica ou política, é a própria forma de ser e estar no mundo. É ser na relação, tudo está interligado, se comunica, se relaciona. Mas, sabemos que fomos separados desta sabedoria e, justamente nesse ponto que gostaríamos de pensar: aqueles que não vivem hoje inspirados por esta sabedoria, poderiam caminhar para esta visão de mundo e das relações?
Prestemos atenção a este primeiro princípio: o Bem Viver é um princípio que dinamiza a vida. O que vem dinamizando nossas vidas? O trabalho: mas qual, para que, de que forma? Os estudos: quais estudos, para contribuir como? Os relacionamentos: como estamos nesse quesito, próxima/os, fraternos e companheiras/os?
Para que o Bem Viver se torne o eixo referencial de nossas vidas, precisamos rever nossas escolhas, nossas relações, nossas decisões, nossos sonhos. Na sabedoria do Bem Viver, tudo está conectado e interdependente, portanto, tudo que rompe com esta harmonia e comunhão, precisa ser questionado e modificado.
Acreditamos que as fontes das tradições religiosas – e, no caso das tradições cristãs, a espiritualidade encarnada e concreta de Jesus –, bebem nessa sabedoria. Sendo assim, o caminho do Bem Viver é um caminho de retomada do que nos enraizou um dia. Em outras palavras, este princípio está presente em nós mesmos, pode ser despertado e ganhar vida em nossos corpos, em nossas vidas, em nossas formas de estar no mundo. É uma potência a ser despertada tanto pessoalmente, como em comunidade.
Mas, cuidado com nossa arrogância moderna. Enquanto princípio, o Bem Viver nos convida à humildade, a nos percebermos e a nos firmarmos como húmus, e a nos apoiarmos na sabedoria dos povos e comunidades que bebem nessa fonte.
Sobre a segunda inspiração – vivermos em comunhão -, já introduzimos alguns pressupostos acima.
Nosso tempo se apegou de tal forma à ideia de sujeito/indivíduo, que parece absurdo rever esse pensamento. Mas, aqui estamos para sermos conduzidos pela sabedoria do Bem Viver, deixarmos de lado essa ideia e nos compreendermos como inter-relacionais, em relação com tudo e com todos.
Ser comunidade já é um tesouro em nossos corações, que tem merecido nossas revisões e cuidados constantes. Nessa compreensão, já percebemos que pessoa e comunidade estão integrados. Somos uma imensa e complexa rede de relações. E aqui não estamos falando apenas de pessoas, mas das relações com outros sujeitos de direitos como a terra, as águas, o ar, os seres vivos, tempos, povos de todo o planeta, enfim, todo o Cosmos.
Voltemos nosso olhar para os povos originários. Para eles, a identidade e a pertença andam de mãos dadas, ou seja, se compreender como parte daquele povo é se compreender integrado a ele. Não há separação. Cada ser tem dentro de si a pluralidade de todas as vidas. Assim, é no coletivo que são partilhados os significados, avaliadas e repensadas as novas práticas. Tudo é circular ou, como diz Nego Bispo, tudo é começo, meio, começo…
Vamos pensando bem fundo e conversando em nossos grupos – comunidades, amigos, parentes, vizinhança, com as plantas, com os animais, com o universo – como podemos ancorar o Bem Viver desde já, onde estivermos, e cuidarmos desse solo tão fecundo?
“Mandai tua força da terra e do ar
Dona Zenilda Xucuru
Das águas e das matas do Ororubá
Salve a nossa mãe Terra, salve as águas
Salve a natureza sagrada
Ô nahe nahe, ô nahe nahe-a
Vamos unir as forças do Ororubá
Salve os santos e os encantos
Salve os reis do Ororubá
Salve a força dos encantados. Amém”


