ColunistasJorge Alexandre Alves

Religião, Pandemia e Conversão

A Quaresma é tempo de conversão. Coisa elementar para qualquer cristão. Quando pensamos nesse período que antecede a Páscoa, fica mais evidente que se converter não é um momento, mas um processo.

Nesse tempo de pandemia, com tantas mortes diárias, esse período ganha um contorno mais profundo ainda. É momento de profunda reflexão, não apenas de cunho pessoal, mas sobre a sociedade da qual fazemos parte.

O que somos e o que estamos fazendo como povo nesta época dolorosa, deixará marcas profundas nas próximas décadas. Muito do que se dizia do brasileiro provavelmente será revisto. A História e as gerações futuras nos julgarão por esses tempos terríveis.

Na verdade, vivemos um momento apocalíptico nessa Quaresma. Nós, cristãos, precisamos entender os sinais dos tempos. Em meio a tantas mortes, o que devemos fazer em nome de nossa fé?

Nós não precisamos de muita reflexão teológica para descobrir onde devemos estar nesse momento trágico. Em meio ao maior colapso sanitário de nossa história, é dever do cristão se colocar ao lado da vida.

E hoje, defender a vida significa se indignar diante das atrocidades que assistimos. Não podemos achar normal todo esse pandemônio na saúde. É inadmissível a qualquer pessoa que se diga seguidor ou seguidora de Jesus de Nazaré compactuar com a produção da morte em escala industrial como hoje presenciamos.

Precisamos nos manifestar publicamente. É necessário dizer NÃO ao genocídio causado pela irresponsabilidade da nossa autoridade maior. Omitir-se, calar-se, significa compactuar com a morte.

Por isso é muito triste quando vemos religiosos, sacerdotes e até bispos desdenhando das vacinas, desinformando a população. “Quem escandalizar os pequeninos…” diz Jesus (Mt 18,6). O que será que se passa nos seminários e nas casas de formação?

São lamentáveis algumas postagens de padres nas redes sociais. Enredados em teorias da conspiração, reproduzindo negacionismos, escravos das fake news, parecem viver em mundo paralelo. Diferente de alguém como o Pe. Júlio Lancelotti, ignoram o sofrimento do povo.

Preferem seus medievalismos e suas cruzadas de ódio. Acabam cúmplices da dor e do sofrimento imposto às famílias de mais de 300 mil mortos. Ao invés de construírem o Reino de Deus na Terra, produzem uma necrorreligião que sustenta esse estado de coisas.

Nessa Quaresma, mais que nunca, somos chamados à conversão. E isso nos exige olhar para Jesus. Por muito menos, ele expulsou os vendilhões do templo e foi muito duro com os fariseus.

E nós, o que faremos como cristãos? Onde está a nossa indignação? Quem tiver ouvidos, que ouça…

 

Botão Voltar ao topo