Celso Pinto CariasColunistas

A politização das olimpíadas

É muito comum, quando se faz um comentário sobre as olimpíadas que ressalte a dimensão política do esporte, ouvir que seria este um comentário inadequado, até grosseiro, pois se mistura política e esporte de modo inapropriado. 

O mundo moderno virou a sociedade do espetáculo. Assim sendo, seria preciso tomar cuidado para que durante o mesmo, as pessoas deixem de pensar, deixem de perceber possíveis contradições. A política é uma dimensão fundamental da vida em sociedade. Contudo, a capacidade de reflexão ao analisar politicamente determinado comportamento social poderia tirar o foco do espetáculo. Para tanto, foi necessário esvaziar o conceito “política” de qualquer valor. E evidente, não apenas nos comentários esportivos, mas em toda vida social.

Faz várias décadas que a política vem apanhando muito, pois os verdadeiros donos do poder perceberam que ao desacreditá-la se evitaria qualquer contestação mais contundente em relação a decisões que não beneficiam o conjunto da população, sobretudo os mais pobres, que é ampla maioria no planeta. Certamente, como toda realidade social, a política está cheia de contradições. Mas tal realidade não faz dela uma peça sem valor, pois nenhuma sociedade existe sem política. Mesmo uma ditadura é a expressão política de uma sociedade autoritária.

A “polis”, palavra grega que significa cidade e dá origem ao conceito política, não se move sozinha na geografia de uma população. A arte de organizar a cidade em vista do bem comum, isto é, a política, precisa ser buscada com afinco, superando, o quanto possível, as contradições das relações de poder que movem uma sociedade. Neste sentido, sempre haverá um conjunto de interesses sociais que serão responsáveis por uma tensão inevitável neste cenário. Mas a questão chave, como se pode concluir da definição, é o bem comum. 

Ora, as olimpíadas estão cheias de interesses disputados pelos vários setores que a organizam. Neste tempo de pandemia, quando muitas teorias da conspiração diziam que era uma doença provocada para fazer determinados países ganharem mais economicamente, quantos se perguntaram o fato de todo um planeta está perdendo dinheiro? Não se adia uma olimpíada que maneja quantidades exorbitantes de dinheiro por causa de uma “gripezinha”. E mesmo adiando por um ano, o Japão perdeu muito dinheiro. 

Certamente não vamos parar diante da TV e ficar analisando tudo politicamente. Certamente não vamos deixar de nos emocionar quando uma pessoa de origem pobre chega a um pódio olímpico e a reportagem vai até a família de origem e mostra o contexto da vitória. Como não se emocionar ao conhecer a história de Rebeca Andrade, mulher jovem, negra, filha de mãe solo, e passando por uma história de muita dificuldade? Porém, o que é isso se não a história política de um país que não oferece oportunidades para pessoas que demonstram certa aptidão para praticar determinado esporte? Um jargão muito usado é que o “esporte salva vidas”. Sim, mais poderia salvar muito mais, e não necessariamente para produzir medalhistas olímpicos. 

Quando vou fazer minha caminhada pela manhã em um maltratado campo de futebol perto de casa, vejo umas três dezenas de adolescentes e jovens, quase todos negros e franzinos, treinando para conseguir uma vaga em um time de futebol local, o “grande” duque caxiense. Quase sempre me pergunto: quantos sonhos estão na cabeça desta rapaziada? Quantos destes chegarão ser titulares em um time de futebol, mesmo da série D do campeonato brasileiro? Sabe-se perfeitamente que na chamada “peneira” do futebol o orifício para ser selecionado é extremamente pequeno, e mesmo os que conseguem passar nem sempre alcançam o grande sonho: “quero ser jogador de futebol para ajudar minha família”. O que é isto senão um ato político?

Portanto, politizar as olimpíadas é algo necessário. Não em todo momento. Mas não se pode deixar de fazer. Embora a política não seja tudo na vida, ela está em tudo que a vida humana faz em sociedade. Quando não somos capazes de perceber isso, somos facilmente manipulados, ainda mais porque o esporte tem uma alta dose de emoção.

Vêm aí as “paralimpíadas”, que gosto hoje muito mais do que as olimpíadas. A primeira vez que vi tal certame foi em Atenas 2004. Um chinês sem os dois braços está em uma competição de nado de costas. O atleta segura uma toalha pela boca sustentada pelo seu treinador. É dada a largada. E o chinês, sem braços, que deu a partida segurando uma toalha pela boca, vence. Que ato revolucionário. Fica então uma pergunta: por que a mídia não dá a mesma atenção para esta competição como dá para as olimpíadas? 

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