
O caminho de respeito, diálogo e colaboração com outras Igrejas e religiões é uma marca fundamental do Concílio Vaticano II, cuja conclusão se deu há 60 anos. O sínodo sobre a sinodalidade, com a ajuda do ministério profético e renovador do papa Francisco, buscou ser uma retomada criativa do Concílio, isto é, assumindo suas grandes intuições, mas aplicando-as de forma nova, de acordo com os desafios de hoje. O Documento Final (DF) do Sínodo, citando Franscisco, destacou que “O caminho da sinodalidade, que a Igreja Católica está a percorrer, é e deve ser ecuménico, assim como o caminho ecuménico é sinodal” (DF 23). Além disso, “entre os frutos mais significativos do Sínodo 2021-2024 está a intensidade do impulso ecumênico” (DF 137), isto é, o diálogo/colaboração com outras Igrejas.
O Sínodo ainda lembra que “não se trata de uma aspiração ou de um aspeto opcional no caminho do Povo de Deus na história atual. Neste caminho, uma Igreja sinodal compromete-se a caminhar, nos diversos lugares onde vive, com os crentes de outras religiões e com as pessoas de outras convicções, partilhando gratuitamente a alegria do Evangelho e acolhendo com gratidão os respetivos dons: construir juntos, todos como irmãos e irmãs, num espírito de intercâmbio e ajuda mútua (cf. GS 40), a justiça, a fraternidade, a paz e o diálogo inter-religioso” (DF 123). Respeitar, dialogar e colaborar com outros irmãos e irmãs de diferentes crenças na construção do Reino não é algo opcional, mas parte fundamental da nossa missão. Infelizmente, estamos longe disso. Ainda hoje, não só há muito preconceito e disputa entre os diversos fiéis, mas principalmente entre os líderes religiosos que usam de suas pregações para gerar rivalidades. Parece que nós somos os donos do Espírito Santo e ele só age na nossa Igreja. É curioso como alguns cristãos se apegam a normas litúrgicas como se fossem a coisa mais importante e quem a descumpre é visto como alguém fora da comunhão da Igreja. Mas estes mesmos ignoram declarações, decretos e constituições do Concílio ou mesmo textos papais que orientam o diálogo com outras Igrejas. Ou seja, o critério para estar em comunhão com a Igreja é o que convém.
O papa Francisco nos ajudou muito a crescer na amizade e colaboração com irmãos e irmãs de outras Igrejas e religiões. Seja por meio de seus encontros com esses líderes religiosos, seja na colaboração em prol da justiça, seja por meio de seus escritos e discursos proféticos. Em 2016, por exemplo, Francisco foi com o líder ortodoxo Bartolomeu I visitar a ilha grega de Lesbos para se encontrar e apoiar refugiados lá presentes. Isso é exemplo de ecumenismo, um caminhar juntos com outras Igrejas em prol do que é mais importante para o Reino, ou seja, a vida das pessoas, a justiça, a fraternidade. O mesmo patriarca Bartolomeu colaborou na encíclica Laudato Si’ de 2015 sobre o cuidado com a casa comum. Em 2019, Francisco assinou uma declaração conjunta com um líder muçulmano, o grande imã Ahmad Al-Tayyeb, que mais tarde lhe ajudou na escrita da encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e amizade social.
Nesta declaração com o líder muçulmano, os dois afirmam que “o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”. Olhem que afirmação ousada e profunda. A diversidade de religiões também é vontade de Deus, de seus desígnios para o ser humano. Além disso, em sua viagem a Singapura em 2024, Francisco afirmou, ainda nessa linha, que “todas as religiões são um caminho para nos aproximarmos de Deus… Só há um Deus, e nós, as nossas religiões são linguagens, caminhos para chegar a Deus. Uns sikh, outros muçulmanos, outros hindus, outros cristãos, são caminhos diferentes”. Portanto, não há necessidade de briga nem disputa religiosa. Inclusive, é preciso respeitar e aprender também até com quem não tem fé religiosa. Pois, como lembre Francisco, “o paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes” (FT 74).
Temos que valorizar a ação de Deus em outras Igrejas e religiões, temos que dialogar mais, rezar mais juntos, colaborar em prol da justiça. Em nossas paróquias há tão poucas iniciativas neste sentido. Esse Ano Jubilar, tempo de renovação, de transformação, deve nos ajudar a amadurecer nesse caminho de diálogo com nossos irmãos e irmãs que creem diferente de nós. Afinal, “se realmente acreditamos na ação livre e generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós” (EG 246).
Eis o tempo de amar e respeitar. Não atiçar rivalidades. Perdoar ofensas cometidas e pedir perdão pelas que cometemos. No final de seu autobiografia, Francisco afirmou uma coisa que deveria nos fazer pensar muito nesse sentido: “No fim da existência, não nos perguntarão se fomos crentes, mas apenas se fomos críveis”.



