
(Continua o tema do artigo-coluna anterior – parte 5)
Vimos que, na realidade — social e individualmente falando —, a Prática ou Ação humana da classe média (os médios proprietários e os assalariados de alto poder aquisitivo) e da classe trabalhadora (trabalhadores e trabalhadoras ligados diretamente à produção), em sua maioria, é também (do ponto de vista objetivo e não sempre do ponto de vista subjetivo ou intencional) uma Prática “desde o mesmo”, ou seja, uma Prática “comprometida” com o sistema dominante, contribuindo — mesmo inconscientemente — para sustentá-lo (defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.
A Prática “desde o mesmo” parte de uma visão essencialista e fixista da história; sustenta e reproduz a história (a sociedade e o indivíduo) como totalidade totalizada (fechada, estabelecida), absolutizada e divinizada (“história da totalidade”), e, ao mesmo tempo, em processo de totalização, absolutização e divinização sempre maior (“meta-história da totalidade” ou “história da totalidade” em permanente processo de meta-historicização). Ela “nega” o “outro” como o “diferente”, o “distinto”, aquele que não faz parte (não integra) essa totalidade, aquele que — para essa totalidade — “não-existe” (“não-é”) e, fazendo isso, acaba negando o próprio Ser humano enquanto tal.
Existem fundamentalmente duas maneiras de “negar” o “outro” (como o “diferente”, o “distinto”): a primeira, “absorvendo” o “outro” no “mesmo” (enquanto possível, “agradavelmente”); a segunda, excluindo (desconhecendo, desconsiderando, descartando) o “outro” e dizendo que o “outro” “não-existe” (“não-é”). As duas maneiras estão presentes no processo histórico e meta-histórico do Ser humano como um todo, mas — podemos dizer — a primeira “predomina” nos países capitalistas industrializados (desenvolvidos) e a segunda “predomina” nos países capitalistas não-industrializados (subdesenvolvidos, do chamado Terceiro Mundo).
Nos países capitalistas industrializados, a Prática “desde o mesmo” (histórico-social e histórico-individual) se projeta e se processa (acontece) “comprometida” com um modo de fazer história em que a sociedade “absorve”, “instrumentaliza” e “mercantiliza” o Ser humano em todos os campos, inclusive no da sexualidade, e não admite nem a possibilidade da existência do “outro” (do “diferente”, do “distinto”) histórico (social e individual) e meta-histórico (meta-social e meta-individual). Esta sociedade caracteriza-se pelo fim da oposição, pela aliança das classes, pelo totalitarismo, pela manipulação das necessidades e pela doutrinação dos objetos.
Na sociedade industrial desenvolvida, a produção e a distribuição em massa de objetos (produtos, mercadorias) “reivindicam o indivíduo inteiro e a psicologia industrial deixou de há muito de limitar-se à fábrica. Os múltiplos processos de introjeção parecem coisificados em reações quase mecânicas. O resultado não é o ajustamento, mas a mimese: uma identificação imediata do indivíduo com a sua sociedade e, através dela, com a sociedade em seu todo” (MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial. O Homem Unidimensional. Zahar, Rio de Janeiro, 1973, p. 30-31. Para caracterizar a sociedade industrial desenvolvida, sigo de perto o pensamento de H. MARCUSE, com o qual estou plenamente de acordo).
Essa identificação imediata e automática “é o produto de uma gerência e organização complicadas e científicas” (Ib., p. 31). Até o “espaço privado” (interior), no qual o Ser humano pode tornar-se e permanecer “ele próprio”, se apresenta invadido e desbastado pela realidade tecnológica (Cf. Ib., p. 30).
Inclusive, na sociedade industrial contemporânea, “o progresso técnico e a vida mais confortável permitem a inclusão sistemática de componentes da libido (sexualidade) no campo da produção e troca de mercadorias. Mas, independentemente do quão controlada possa ser a mobilização da energia instintiva (importa às vezes em administração científica da libido), do quanto possa servir de sustentáculo do status quo — ela é também agradável aos indivíduos administrados, como o é o pilotar uma lancha, empurrar a segadora motorizada no jardim, dirigir o automóvel a grande velocidade” (Ib., p. 84-85). Essa mobilização e administração da libido — que é um processo de dessublimação repressiva (controlada, ajustada, institucionalizada) — traz satisfação, mas, ao mesmo tempo, “gera submissão e enfraquece a racionalidade do protesto” (Ib., p. 85).
A classe trabalhadora, porém, podendo ter como seus “aliados” pessoas da chamada classe média e até de algumas pessoas da classe dominante (dispostas — por uma motivação humana e ética — a fazer o “suicídio de classe”), poderá (como veremos) — de acordo com o seu nível de consciência e de organização (Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares e outras Organizações Sociais Populares) — se tornar o sujeito primordial da Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) “desde o outro”, ou seja, da Prática que — a partir dos pobres, empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descartados pelo sistema dominante (dos que “não-são”, dos que “não-contam”) — leva à construção de uma história socialmente (estruturalmente) e individualmente (subjetivamente) nova.
Como diz o ditado: Povo unido e organizado jamais será vencido! É a nossa esperança. Para os que somos — ou queremos ser – Cristãos e Cristãs (radicalmente Seres humanos), é o Reino de Deus acontecendo na história do Ser Humano no Mundo com o Mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. Vamos em frente! A luta continua!
(No próximo artigo-coluna, continuará o mesmo tema: parte 6)
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia, 28 de maio de 2026




