ColunistasJorge Alexandre Alves

As comunidades entre incertezas e possibilidades do cenário eleitoral

Faltando pouco mais de dez meses para as eleições presidenciais, qualquer previsão sobre o que vai ocorrer em 2022 é prematura e arriscada. O máximo que se pode fazer são observações rápidas sobre os movimentos preliminares deste xadrez político.

Ainda assim é necessário ter em conta que mudanças na conjuntura são muito possíveis. Portanto, o que se diz ou escreve em termos de análise política faltando tanto tempo para as eleições pode perder sua validade rapidamente.

Levando em conta o risco de uma análise que seja solapada pelos fatos, hoje começamos a ter um possível cenário para o ano que vem. Neste contexto, três coisas se destacam.

Uma delas é a desidratação da aprovação ao atual governo. O presidente jamais teve sua popularidade tão baixa. Mas ainda assim, confirmando certo grau de penetração do bolsonarismo na sociedade, o inquilino do Planalto iria ao segundo turno.

O segundo elemento é a não decolagem da chamada terceira via. O surgimento de uma força política capaz de derrotar Bolsonaro e ser capaz de se apresentar à sociedade como o AntiLula” da vez. Todas a potenciais candidaturas desse segmento deram com os burros n’água até o momento.

Mas a entrada de Sérgio Moro pode alterar esse jogo, ainda que lhe falte densidade política. Setores expressivos da imprensa brasileira tentam lhe dar um verniz de estadista. E o suspeito ex-juiz parece contar com apoios cada vez mais entusiasmados de oficiais-generais responsáveis pela guerra não declarada que promoveram contra seu próprio país.

Não podemos nos enganar a respeito de Moro. Sua eventual candidatura representa os interesses da direita brasileira no plano econômico e dos militares no plano político. E parcela da imprensa ainda se ocupa em construir uma imagem de cavaleiro injustiçado da justiça brasileira.

Ou seja, estamos falando de quem sempre comungou economicamente com a agenda de Paulo Guedes. E neste caso, deve-se incluir também a mídia empresarial-corporativa brasileira que, diante de um segundo turno entre um facínora e um professor, foi capaz de dizer à sociedade que se tratava de uma difícil escolha

A imprensa tem mencionado que Lula desejaria ter Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente em sua chapa. Em que pese as declarações públicas do petista sobre não ter decidido se candidatar, é cada vez mais evidente que é o grande nome da oposição de centro-esquerda do Brasil, com reais chances de vencer as eleições de outubro do ano que vem. A militância se questiona se Lula precisaria de um vice como o outrora “picolé de chuchu”.

Se olharmos pela ótica dos movimentos sociais, talvez essa possibilidade não seja das melhores. No campo religioso, se o que dizem os jornalistas sobre uma possível chapa Lula-Alckmin for verdadeiro, temos muitas complicações também.

Alckmin sempre se identificou com segmentos muito conservadores do catolicismo. Quando foi governador, dizia-se que ele participava de encontros promovidos pela Opus Dei no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Esse grupo sempre esteve próximo de governos autoritários desde os anos 40 na Península Ibérica. No Chile, apoiaram Pinochet. No Brasil, possuem influência na imprensa e nas mais importantes dioceses brasileiras.

Outro dia foram mencionados como exemplo de bom catolicismo, em contraposição ao Papa e à CNBB, por um tresloucado deputado estadual de São Paulo. Estariam dispostos a dialogar com o campo popular e com o catolicismo da Teologia da Libertação em nome da reconstrução do país? As evidências não indicam essa possibilidade.

Por outro lado, uma chapa com essa composição poderia derrotar Bolsonaro. Mas com elevado preço e muitas concessões aos mais ricos.

Dificilmente seria possível promover mudanças de fundo no país. Diferente de 2002, hoje é muito claro não ser possível um novo pacto de conciliação com essa elite e com o Centrão. É preciso aprender com os erros anteriormente cometidos.

Neste cenário, não há como esperarmos qualquer reversão das recentes contrarreformas impostas à sociedade. Para quem é da educação, seria terrível que tal pacto eleitoral saísse vitorioso.

Na prática, a concepção empresarial-corporativa de ensino em vigor seguiria prevalecendo, pelo menos inicialmente. Em outras palavras, movimentos e grupos do empresariado brasileiro que promoveram as contrarreformas recentes na educação continuariam dando as cartas no Conselho Nacional da Educação. Como seria a composição do MEC com um governo cujo vice-presidente tem um histórico de repressão aos educadores?

Seria possível mexer na estrutura fundiária brasileira, impor punição aos crimes ambientais praticados pelo garimpo, pelo latifúndio, pela grilagem de terra e pelas madeireiras? Haveria chance de reverter a situação extremamente desfavorável a indígenas, ribeirinhos e aos movimentos sociais no campo?

Além disso, precisamos reconhecer que o sistema eleitoral está viciado pelo poder econômico e pelo poder simbólico dos coronéis da fé do protestantismo e do catolicismo. É difícil nutrir esperanças de que haja uma melhora significativa da representação parlamentar a partir de 2022.

Para o povo das comunidades isso representa perspectivas pouco animadoras. Mesmo derrotando o bolsonarismo no voto, a restituição dos direitos que nos foram roubados não está no horizonte.

Ao mesmo tempo é preciso sempre levar em conta a possibilidade de tentativa de ruptura institucional pelos atuais donos do poder político. Ano que vemse comemorará os 200 anos da Independência do Brasil, uma data muito simbólica a pouco menos de um mês das eleições.

Apoiadores deste governo não estão sendo armados à toa. O número de clubes de tiro, de colecionadores de armas e de caçadores de javali nunca foi tão grande no Brasil. Isso para não falar de milicianos e outros criminosos em simbiose com o poder público.

Apesar de tudo, talvez a chapa Lula/Alckmin seja a única possibilidade de estancar a implosão da República que presenciamos. E pode ser a menos pior das possibilidades dentro de um quadro que ainda poderia ser muito pior.

Por isso, não podemos nos iludir quanto a possibilidades reais de mudanças estruturais na sociedade brasileira em curto ou médio espaço de tempo. Essa talvez seja a condição trágica do campo popular nestes dias de fim do mundo: Reconhecer que não tem forças para promover as mudanças tão necessárias e sonhadas pelos mais pobres desta terra.

Diante desse quadro, independente de quem será o candidato dos movimentos sociais organizados, é fundamental que as comunidades continuem sua missão. Mais do que nunca se faz necessário adquirir consciência de quem somos e por quem lutamos.

Nesse momento crucial da história, não podemos renunciar à esperança. É preciso celebrar a vida, aprofundar o trabalho de base e ter sabedoria para ler o que a realidade nos revela.

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