
A sociedade de Israel, como boa parte das sociedades antigas, era extremamente patriarcal, ou seja, era a figura do homem que tinha autoridade e vez na organização da vida. As mulheres eram vistas como servas e submissas. A Escritura tinha orientações duras sobre elas. Não podiam sair em público desacompanhadas, não eram chamadas como testemunhas em julgamentos, não podiam falar nas sinagogas nem estudar a lei com algum mestre. No período menstrual, ficavam impuras e não podiam tocar nada nem ninguém, pois os deixariam impuros (Cf. Lv 15,19-33). Não lhes era permitido sequer sair de cabelo solto em público; só as mulheres de má fama andavam assim, como a que enxugou os pés de Jesus com seus cabelos (Cf. Lc 7,38).
Lamentavelmente, muitos utilizaram passagens da Escritura para justificar a submissão da mulher e não fizeram a devida releitura e reinterpretação a partir das posturas de Jesus. O Mestre rompeu com os costumes de sua época e mostrou que a vontade de seu Pai era bem diferente do que mostravam. Por exemplo, enquanto a mulher era tida como tentadora e sedutora, culpada pelos pecados dos homens, Jesus inverte a responsabilidade: “eu vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para desejá-la cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5,28). Não é a mulher que é sedutora, mas o homem que é cobiçoso e infiel. Mas ainda hoje se joga para as mulheres a culpa dos abusos masculinos: “só usa roupa curta”, “só anda sozinha”, “ela que provoca”.
Jesus fica do lado da mulher quando queriam condená-la à morte por adultério (Cf. Jo 8,1-11). Recordou que, se todos têm pecados, ninguém tem direito de condenar o outro. Além disso, adultério se comete a dois. Onde está o homem com quem a mulher adulterou? Por que só a mulher receberia a pena de morte? Jesus também não recriminou a mulher que sofria há anos com fluxo de sangue por tê-lo tocado. Ela não podia estar ali no meio do povo, pois sua condição a tornava impura. Jesus a acolheu e disse que fosse em paz, pois sua fé a salvara (Cf. Mc 5,25-34).
João narra um profundo diálogo de Jesus com a mulher samaritana (Cf. Jo 4,1-42). O Senhor se revelou a ela como messias e fez uma grande missionária aquela que era vista como herege e indigna de pregar. João também coloca na boca de uma mulher (Marta) a confissão de fé que nos outros Evangelhos aparece da boca de Pedro: “Disse-lhe: ‘Sim, Senhor! Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que vem ao mundo’” (Jo 11,27; Cf. Mc 8,29; Mt 16,16; Lc 9,20). Nas suas parábolas, o Senhor também usava imagens tiradas do mundo feminino (o fermento na massa – Cf. Mt 13,33; Lc 13,20-21; a moeda perdida pela mulher – Cf. Lc 15,8-10), mostrando que a linguagem de seus ensinamentos também era para as mulheres.
Jesus fez algo impensável em seu tempo. Permitiu que mulheres o seguissem como discípulas, muitas delas sem o acompanhamento de algum homem da família (Cf. Lc 8,1-3). “O fato é incontestável e, ao mesmo tempo, surpreendente, porque, nos anos 30 e ainda mais tarde, não era permitido às mulheres estudar a lei com um rabi. E não só isso. Viajar pelo campo seguindo um varão e dormir no descampado junto com um grupo de homens era provavelmente um escândalo. Na Galileia não se tinha conhecimento de algo parecido. O espetáculo de um grupo de mulheres, em alguns casos sem companhia dos maridos, algumas delas antigas endemoniadas, seguindo um varão celibatário que as aceita em sua companhia junto com seus discípulos varões, não podia senão despertar receio” (Pagola). E muitas dessas mulheres o acompanhavam desde a Galileia e foram até a cruz (Cf. Mc 15,40.41).
A cena de Jesus na casa de Marta e Maria é muito significativa (Cf. Lc 10,38-42). Enquanto Marta assume tarefas tipicamente femininas para aquele tempo (cuidar da cozinha e tarefas domésticas), Maria se atreve a ficar sentada ouvindo Jesus como discípula (coisa que só os homens podiam). Marta quer que Jesus lembre à sua irmã qual é o seu lugar. Jesus mostra que o lugar da mulher é onde ela quiser: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). Além disso, Jesus se deixou questionar pelas mulheres; inclusive, foi por meio de uma estrangeira que Jesus percebeu que a vontade do Pai era que a salvação também chegasse aos pagãos. Trata-se da cena da siro-fenícia que pede a Jesus a cura para sua filha (Cf. Mc 7,24-30). Como explica o frei Carlos Mesters, “a mulher estrangeira da região de Tiro e Sidônia consegue mudar a cabeça de Jesus e é atendida por ele”. Isso porque Jesus discernia a vontade do Pai não apenas nos profundos momentos de oração que tinha, mas também ouvindo o povo, contemplando a vida.
Mas poderíamos nos perguntar por que os Evangelhos não falam em discípulas, se Jesus as tinha. Na verdade, “não existia em aramaico uma palavra para nomeá-las assim. Por isso também os evangelhos gregos não falam de discípulas. O fenômeno de mulheres integradas no grupo de discípulos de Jesus era tão novo que ainda não existia uma linguagem adequada para expressá-lo. Não são chamadas de discípulas, mas Jesus as vê e trata como tais” (Pagola). Jesus estava à frente até das línguas de seu tempo. Ele assumiu tão profundamente o discipulado das mulheres que as escolheu como as primeiras testemunhas da Ressurreição (Cf. Mc 16,1-11; Mt 28,1-10; Lc 24,1-12; Jo 20,1-2.11-18). Assim, percebemos que, tanto no tempo de Jesus, como no início da Igreja e hoje, são as mulheres que mais animam e fortalecem nossas comunidades de fé, mesmo que não sejam devidamente reconhecidas e valorizadas.
Como escreveu o Papa Francisco: “é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja… deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho e nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais” (EG 103). A mulher não deve ser submissa ao homem, nem é pecado que reivindique mais voz e vez na sociedade e na Igreja. O verdadeiro pecado é usar o Evangelho para pregar a submissão feminina quando Jesus defendeu a promoção das mulheres.



