Celso Pinto CariasColunistas

Estão roubando as comunidades eclesiais

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

“Não deixemos que nos roubem a comunidade!”, assim termina o parágrafo 92 da “Alegria do Evangelho” (Evangelli Gaudium) que o Papa Francisco nos apresentou no início de seu pontificado.

Contudo, a vida comunitária está cada dia mais machucada. O mundo moderno que ofereceu muita coisa boa para os seres humanos, não foi capaz de superar a crise que afeta a sociedade faz algumas décadas. A humanidade está sendo empurrada para viver a dimensão subjetiva de forma extrema, e, consequentemente, fazendo homens e mulheres esquecerem que a vida é relação. Ninguém é capaz de se tornar humano sem que outro humano ofereça a sua humanidade. Não bastam os instintos biológicos.

O consumismo, como forma de garantir felicidade, invadiu todos os espaços. A busca pela superação do outro e da outra como alguém que pode atrapalhar o “meu sucesso”, seduz quase todo mundo. Predomina uma lógica da concorrência, da competição, fazendo a maioria da população acreditar que a culpa pelo fracasso é exclusivamente da pessoa e não de um sistema social excludente, que marginaliza, criminaliza para justificar até assassinatos, onde intolerância e preconceito são estimulados, entre tantas outras mazelas.

Na verdade, as comunidades estão sendo profundamente roubadas, caro irmão Bergoglio.  É interessante que tentam desfigurar a realidade sofrida das favelas debaixo do nome “comunidade”. Existem favelas que tem muitas comunidades em seu interior. Porém, quando se iguala tudo se está tentando encobrir uma grande injustiça. Grande desigualdade. E as igrejas estão sendo engolidas por esse modo de pensar e agir.

Sim, nem mesmo o apelo de um Papa, no caso católico, está sendo suficiente para manter essa estrutura tão fundamental da existência humana: viver em comunidade. Lembre-se que o cristianismo é uma fé essencialmente comunitária: “onde dois ou mais…”; “os cristãos tinham tudo em comum”, “nós e o Espirito Santo decidimos”, é o caminhar juntos (Sínodo).

É muito estranho que em orações cristãs apareça um “eu” isolado da comunidade: “meu Deus”, sendo que a encarnação na história do próprio Deus, Jesus Cristo, ensinou a rezar “Pai nosso”. Estranho que as Paróquias se tornem “clubes” de arrecadação onde se estrutura muitas formas de arrecadar dinheiro, mas não se estrutura relações de misericórdia e compaixão. Onde Mateus 25 não é levado em consideração: “Tive fome e me deste de comer, tive sede e deste de beber, era peregrino e me acolheste”.  

As comunidades cristãs, infelizmente, estão se tornando reflexo desta crise civilizatória pela qual passamos. Acredita-se firmemente que a solução passa pelo “performático”, padres cantores, missas shows, até adorações eucarísticas em praça pública, explorando o sofrimento interior sem uma ponte para a vida comunitária. Mas são verdadeiros castelos de areias, como disse o Papa São Paulo VI, “verniz superficial” encobrindo a crise (EN 20), pois as pessoas começam a adoecer quando percebem que não receberam uma “boa nova” (Evangelho), mas sim um conteúdo incapaz de responder as questões mais profundas da vida. Querem inclusive, faz tempo, destruir as CEBs (Comunidades Eclesias de Base) que são hoje minoria abraâmica defendendo o Caminho de Seguimento de Jesus.

Assistimos inertes os crescimentos de doenças psicológicas: síndrome de pânico, burnout (doença pelo excesso de trabalho), crise de ansiedade, depressão, e até o extremo do suicídio. A pandemia mais grave de nosso mundo é psíquica, até porque ela possibilita imunidade baixa em caso de pandemias viróticas, como Covid.

Porém, como “realistas esperançosos” (Suassuna), vamos juntar nossas forças ao clamor do Papa. Muitos no mundo de hoje estão percebendo que o individualismo moderno está conduzindo a humanidade à catástrofe. Existe experiência de pessoas não vinculadas a religiões que estão valorizando o comunitário, procurem saber, por exemplo, sobre o “Cohousing”: aposentados que decidem viver juntos (https://www.citas.com.br/post/cohousing-o-que-e-e-como-funciona). Vamos resistir fazendo comunidades vivas, onde as relações possam ser vividas de forma verdadeira, com alegrias e tristezas, mas com a certeza de que o caminho se faz caminhando juntos.  Acreditar no outro e na outra é fundamental, foi assim que a humanidade sobreviveu tanto tempo.

Abaixo o clericalismo, o autoritarismo, a vaidade, a autorreferencialidade que não permite ver no outro/a um irmão, uma irmã.

NÃO DEIXEM QUE NOS ROUBEM A COMUNIDADE.

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