ColunistasPadre Joaquim Jocélio

O desafio de uma catequese que forme no amor

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

A catequese é um grande desafio para a Igreja. Seja em um sentido mais amplo (evangelização, testemunho da vida cristã), seja em um sentido mais estrito (encontros com crianças, jovens, adultos). Isso porque muitos equívocos podem se dar neste caminho. A catequese pode ser reduzida a uma preparação para os sacramentos, pode ser um cursinho de doutrina cristã ou mesmo reprodução de uma sala de aula com todos os mecanismos formais (chamada, disposição do espaço, exercícios, leitura, presença do tio ou da tia etc.).

A catequese passou por muitas etapas nos anos recentes. Desde a decoreba de fórmulas doutrinais e orações, passando por encontros dialogados, com boa base bíblica, tratando questões importantes da pessoa humana. Hoje, há a busca de ligar mais a catequese à liturgia por meio da Iniciação Cristã com Inspiração Catecumenal. Um método valioso, mas que precisa ser bem compreendido e vivido. Pois o risco é que, depois de termos saído do doutrinarismo (decoreba de doutrinas), acabemos caindo no ritualismo (preocupação e foco exagerado nos ritos). A catequese é para a vida cristã. É um caminho de testemunho (não só pregação) que nos ajude a viver segundo o jeito de Jesus.

Sobre isso, o Papa Francisco explicava que “o primeiro anúncio deve desencadear também um caminho de formação e de amadurecimento” e que “a evangelização procura também o crescimento” (EG 160). Contudo, alertava que “não seria correto que este apelo ao crescimento fosse interpretado, exclusiva ou prioritariamente, como formação doutrinal. Trata-se de ‘cumprir’ aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos: ‘É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei’ (Jo 15,12)” (EG 161). E, trazendo o testemunho do Apóstolo Paulo, recorda que ele, “às suas comunidades, apresenta a vida cristã como um caminho de crescimento no amor: ‘O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos’ (1Ts 3,12)” (EG 161). Sendo assim, embora a doutrina seja importante e o rito também, a catequese é, antes de tudo, para nos ajudar a crescer no amor de Jesus. A catequese, portanto, deve apresentar aspectos/pontos fundamentais da vida e ensinamentos de Jesus que nos ajudem a crescer no amor: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35). 

Por isso, seria mais interessante falar em catequese com crianças, jovens e adultos do que catequese de Primeira Eucaristia e Crisma. Assim, não se liga a catequese exclusivamente ao sacramento, como se fosse apenas um cursinho para depois celebrá-lo. Os sacramentos são fundamentais para a vida cristã, portanto, eles serão celebrados durante o caminho da catequese, mas ela não é simplesmente para isso. A catequese é para a vida cristã, para ajudar no crescimento no amor, para formar e fortalecer a comunidade dos que seguem os passos de Jesus.

Para isso, não só seus assuntos, mas a própria maneira de organizar a catequese precisam ser diferentes. Os encontros podem acontecer nas capelas, salas de catequese ou salões, mas também podem acontecer num espaço ao ar livre, sob uma árvore, num campo, na casa de um dos catequizandos. A organização do espaço deve ser sempre circular, de preferência com a Bíblia e símbolos no centro. Não é aula, não tem chamada nem prova. É um encontro de irmãos e irmãs. Embora os temas sejam muito importantes, eles podem ser trabalhados de formas diversas. Se o texto fala de acolhida dos excluídos ou cura de um doente, o encontro pode ser uma visita a um idoso que vive só, ou a alguém enfermo. Canta-se e reza-se com ele; se oportuno, lê-se um texto. Enfim, catequese não se identifica com o estilo dos encontros tradicionais. O incentivo à participação nos círculos bíblicos, missas e celebrações da Palavra também é importante. O envolvimento nos eventos da paróquia ou da diocese, na luta por direitos, tudo isso forma no estilo de Jesus, ajuda a crescer no amor, na vida cristã.

 Momentos de lazer com a turma também são importantes. Não há nada mais efetivo do que o afetivo. Ou seja, quanto mais estreitarmos os laços de amizade e fraternidade, melhor seremos comunidade de fé. Momentos lúdicos também são forma de catequese: lanches partilhados, roda de música, banhos de tanque, rio, piscina, sair pra comer pizza, viagem para praia ou até para um santuário etc. É importante também que o/a catequista possa, na medida do possível, visitar seus catequizandos, conhecer suas famílias. Quem sabe até pensar em um encontro com a família.

Os encontros de catequese não devem ser longos, algo em torno de uma hora. Os catequizandos podem ser envolvidos na condução do momento, usando, inclusive, seus dons: tocando violão, cantando, dramatizando. Podem ajudar na leitura bíblica ou oração inicial, que pode e deve ser criativa; sempre que possível, ligada ao tema do dia. 

A catequese deve ser espaço de acolhida e vivência da fraternidade. Deve nos levar a ser cada dia mais parecidos com Jesus. É um desafio permanente. Mas isso é a vida cristã. Não simplesmente participar de eventos e atividades religiosas, mas espalhar no mundo o jeito amoroso de Jesus, defendendo a justiça, a igualdade, assumindo a causa dos pobres e oprimidos deste mundo. Trata-se de seguir os passos de Jesus que “andou por toda parte, fazendo o bem” (At 10,38). Os encontros devem criar comunidade, gerar fraternidade. Não são simplesmente para os catequizandos entrarem para as pastorais depois do período estipulado de catequese. Isso é importante e fundamental. Mas, antes de tudo, eles e elas devem ser no mundo pessoas que assumem o jeito de Jesus de Nazaré. 

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