
(Continua o tema do artigo-coluna anterior – parte 6)
Antes de tudo, reconhecemos que a Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) da classe trabalhadora, com seus “aliados” e “aliadas” – unida e organizada conscientemente nos Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Entidades de Estudantes, Associações de Mulheres e muitas outras é – e pode tornar-se sempre mais – o sujeito primordial da Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) “desde o outro”, ou seja, da Prática que – a partir dos pobres (empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descartados pelo sistema dominante: os que “não-são”, os que “não-contam”) – leva à construção de uma história socialmente (estruturalmente) e individualmente (subjetivamente) nova.
Ao mesmo tempo, porém, reconhecemos que – por ser essa união e organização consciente da classe trabalhadora a caminho – sua Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) e a dos seus “aliados” e “aliadas” é ainda – em sua maioria (ao menos do ponto de vista objetivo e não sempre do ponto de vista subjetivo ou intencional) – uma Prática “desde o mesmo”, ou seja, uma Prática “comprometida” com o sistema dominante, contribuindo – mesmo inconscientemente – para sustentá-lo (defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.
Frente à esta realidade, toda crítica e toda oposição são confrontadas com uma situação que parece privá-la de suas próprias bases. “O progresso técnico, levado a todo um sistema de dominação e coordenação, cria formas de vida (e de poder) que parece reconciliar as forças que se opõem ao sistema e rejeitar ou refutar todo protesto em nome das perspectivas históricas de liberdade de labuta e de dominação. A sociedade contemporânea parece capaz de conter a transformação social, transformação qualitativa que estabeleceria instituições essencialmente diferentes, uma nova direção dos processos produtivos, novas formas de existência humana. Essa contenção da transformação é, talvez, a mais singular realização da sociedade industrial desenvolvida” (MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial. O Homem unidimensional. Zahar, Rio de Janeiro, 19734, p. 15-16).
Nesta sociedade, a burguesia (os grandes proprietários dos meios de produção) e o proletariado (os trabalhadores e as trabalhadoras diretamente ligados e ligadas à produção material) ainda são as classes básicas, mas “o desenvolvimento capitalista alterou a estrutura e a função dessas duas classes de tal modo que elas não mais parecem ser agentes de transformação histórica. Um interesse predominante na preservação e no melhoramento do status quo institucional une os antigos antagonistas nos setores mais avançados da sociedade contemporânea. E a própria ideia de transformação qualitativa recua diante das noções realistas de uma evolução não-explosiva (…)” (Ib., p. 16).
O consumismo e sua extensão a todas as camadas sociais e individuais cria – embora não corresponda à realidade – a impressão da igualdade de classes.
“Se o trabalhador e seu patrão assistem ao mesmo programa de televisão e visitam os mesmos pontos pitorescos, se a datilógrafa se apresenta tão atraentemente pintada quanto a filha do patrão (…), se todos lêem o mesmo jornal, essa assimilação não indica o desaparecimento de classes, mas a extensão com que as necessidades e satisfações que servem à preservação da sociedade estabelecida é compartilhada pela população subjacente” (Ib., p. 29).
Na sociedade industrial desenvolvida, “o aparato técnico de produção e distribuição (com um crescente setor de automatização) não funciona como a soma total de meros instrumentos que possam ser isolados de seus efeitos sociais e políticos, mas, antes, como um sistema que determina, a priori, tanto o produto do aparato como as operações de sua manutenção e ampliação. Nessa sociedade, o aparato produtivo tende a tornar-se totalitário, determinando não apenas as oscilações, habilidades e atitudes socialmente necessárias, mas também as necessidades e aspirações individuais. Oblitera, assim, a oposição entre existência privada e pública, entre necessidades individuais e sociais. A tecnologia serve para instituir formas novas, mais eficazes e mais agradáveis de controle social e coesão social”.
Face a este modelo totalitário de sociedade, “a noção tradicional de ‘neutralidade’ da tecnologia não mais pode ser sustentada. A tecnologia não pode, como tal, ser isolada do uso que lhe é dado; a sociedade tecnológica é um sistema de dominação que já opera no conceito e na elaboração das técnicas. A maneira pela qual a sociedade organiza a vida de seus membros compreende uma escolha inicial entre alternativas históricas que são determinadas pelo nível de cultura material e intelectual herdado. A própria escolha resulta do jogo dos interesses dominantes. Ela antevê maneiras específicas de utilizar o Ser humano e a natureza e rejeita outras maneiras. É um ‘projeto’ de realização entre outros”.
Hora, “assim que o projeto se torna operante nas instituições e relações básicas, tende a tornar-se exclusivo e a determinar o desenvolvimento da sociedade em seu todo. Como um universo tecnológico, a sociedade industrial desenvolvida é um universo político, a fase mais atual da realização de um projeto histórico específico – a saber, a experiência, a transformação e a organização da natureza como um mero material de dominação”.
Desdobrando-se, “o projeto molda todo o universo da palavra e da ação, a cultura intelectual e material. No ambiente tecnológico, a cultura, a política e a economia se fundem num sistema onipresente que engolfa ou rejeita todas as alternativas. O potencial de produtividade e crescimento desse sistema estabiliza a sociedade e contém o progresso técnico dentro da estrutura de dominação. A racionalidade tecnológica ter-se-á tornado racionalidade política” (Ib., p. 18-19).
Conscientes dessa realidade, esperançar é preciso! A vitória é e será nossa!
(No próximo artigo-coluna, continuará o mesmo tema: parte 7)
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia, 28 de junho de 2026

