ColunistasRosemary Fernandes da Costa

A Profecia comunitária em tempos de Advento

Nestes dias de novembro mergulhei em uma leitura muito relevante para mim e para nosso momento atual, o livro Profecia e Martírio, na Caminhada, de nosso querido amigo, o Ir. Marcelo Barros (Indico demais a leitura e suas proposições). É a partir de uma das reflexões deste livro-diálogo que proponho pensarmos juntas o sentido da Profecia neste tempo dedicado ao Advento. 

Neste tempo, somos convidadas a pensar sobre a caminhada da humanidade na direção da promessa de Vida plena para todos os povos e toda a natureza. Em terras latino-americanas, esse convite nos chega como compromisso com a caminhada de libertação de tantos povos empobrecidos, desrespeitados em suas culturas, em suas formas originárias de viver as relações sociais, políticas e econômicas e, com isso, se tornam testemunhas e também mártires desta caminhada libertadora. 

Como podemos hoje retomar a dimensão profética de nossas vidas como fidelidade a essa caminhada histórica e sacramental, mas também com elementos de criatividade para cada tempo e situação? Como podemos nos manter atentas para não cairmos na perspectiva subjetivista da fé, focada em doutrinas que não dialogam com a diversidade presente em nosso chão comum ou ainda, impedem e bloqueiam o diálogo libertador?

Marcelo Barros nos recorda que o termo ‘profeta’, comum a muitas culturas, “recebeu uma conotação de previsão do futuro pessoal ou coletivo”. No entanto, ao caminharmos pelas narrativas do Primeiro e do Segundo Testamentos, vamos encontrando outras formas de compreendê-lo. Por exemplo, “a profecia bíblica se torna, pouco a pouco, o exercício de discernir e testemunhar aquilo que Deus quer dizer ao mundo”.

Nesta breve reflexão, pensemos sobre a profecia como uma vocação e, como toda vocação, no seu conceito mais profundo, está voltada para um bem comunitário, sendo portanto, uma vocação comunitária. O profeta não fala para si mesmo, ou para causas pessoais. O profeta não anuncia a si mesmo. 

A vocação profética nos fala, portanto, de uma identidade que se torna dom, que se compreende como missão ligada à Vida para todas, para todos e hoje, com a consciência que tudo na Vida está interligado, uma missão ligada à Mãe Terra. 

Pensemos juntas em uma implicação fundamental para a vocação profética hoje, que consiste na necessidade de denunciar tudo que afasta da Vida Plena para todos, mas não apenas, é importante orientar caminhos possíveis, alternativas sociais, econômicas, políticas que sejam libertadoras e integradoras de todas as dimensões da Vida, muitas vezes, colocadas em segundo plano nas prioridades sociais, ou até mesmo, isoladas ou excluídas dos projetos. 

E, como podemos fazer isso? Como trilhar novos caminhos na direção de projetos sociais, econômicos e políticos que não trabalhem para a desumanização e a escravidão dos seres humanos e de todo o ambiente? Como nos exorta Marcelo Barros no texto já citado, 

(…) em Medellin, os bispos se “propuseram dar à Igreja latino-americana o rosto de uma Igreja pascal, pobre e a serviço da libertação de toda a humanidade e de cada ser humano por inteiro” (Medellín 5,15). Não há como realizar essa proposta sem se opor claramente ao sistema que mata e sem lutar para mudá-lo.

Duas pistas para nosso caminhar nesse tempo de Advento. A primeira é nos voltarmos para uma análise dos processos atuais, especialmente aqueles que o projeto neoliberal assume e impõe a todos os povos do mundo. Podemos fazer em rodas de conversa, em grupos de estudo, buscando bibliografia de apoio (abaixo indicamos alguns trabalhos). Essa primeira pista nos ajuda a entendermos o projeto socioeconômico que nos circunda por todos os lados e que, tantas vezes, nem percebemos suas artimanhas e seduções. Muitas vezes, só nos damos conta do que nos enreda ao vermos suas consequências na destruição ambiental, no avanço do desemprego e da exploração do trabalho, do aumento absurdo de enfermidades e de mortes precoces, no crescimento das intolerâncias e seus efeitos cruéis e letais. 

Contudo, é importante também estudarmos sobre novos projetos, sobre alternativas que já estão acontecendo em muitos territórios de nosso chão comum, e são mais do que novas teorias, são inspirações e estratégias de transição para novos projetos socioeconômicos e políticos. 

A segunda pista é a escuta próxima de comunidades que já vivem essas experiências. Por nosso chão afora novas experiências estão sendo vividas por comunidades agrícolas, por quilombos, pelos povos originários, comunidades ambientais. Que tal trazê-las até pertinho e escutar suas narrativas? São experiências das bases, que resgatam o amor à Mãe Terra, a vivência comunitária, o cuidado comum, o respeito às diversidades. 

Essas são comunidades proféticas, elas se deparam com processos de injustiça, de empobrecimento social e ambiental, e atuam de forma prospectiva, aprendendo, ouvindo os mais velhos e os mais novos, dialogando internamente e, especialmente, construindo estratégias pedagógicas, místicas, sociais, econômicas, políticas, que integram todas as dimensões da Vida Plena. 

Finalizando com a reflexão proposta por Marcelo Barros, a dimensão de novidade da profecia é a experiência concreta do amor, que carrega tudo e todos com energia nova, que “ilumina discípulos e discípulas a aplicar a Palavra a seu momento novo. É a sabedoria de aplicar a palavra justa para o aqui e agora que estamos vivendo”.

Dicas bibliográficas para grupos de estudo inspirados na reflexão acima:

  1. PROFECIA E MÁRTÍRIO, NA CAMINHADA. Marcelo Barros. CEBI, 2022
  2. NOVOS PARADIGMAS PARA OUTRO MUNDO POSSÍVEL. Organizado por Ivo Lesbaupin e Mauro Cruz. Abong/ISER
  3. COMO CONSTRUIR A SABEDORIA DO BEM VIVER. Organizado por Ivo Lesbaupin. Abong/ISER.
  4. PARA ALÉM O DESENVOLVIMENTO. CONSTRUIR HORIZONTES UTÓPICOS. Organizado por Ivo Lesbaupin e Evanildo Barbosa da Silva. Abong/ISER.

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