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Igreja e violência contra religiões de matriz africana

Campanha da Fraternidade 2018: Respeito e a Superação da Violência

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

A Campanha da Fraternidade 2018: Fraternidade e Superação da Violência, com o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8) nos provoca a uma profunda reflexão de quem sãos as verdadeiras vítimas da cultura da violência e como é necessário que a Igreja seja missionária e profética na promoção da cultura de paz.

É preciso entendermos as causas históricas e estruturantes da violência no Brasil no que tange vitimização de alguns grupos específicos, e de forma coletiva encontrarmos soluções para erradicá-las.

Ao longo desse período quaresmal, o Portal das CEBs deseja aprofundar alguns debates em torno do tema central da CF 20018 da CNBB. https://www.edicoescnbb.com.br/campanha-da-fraternidade-2018

Iniciamos com a temática da intolerância religiosa, principalmente sobre as religiões de matriz africa, que sofrem cotidianamente a violação do direito a cultuar sua religiosidade e o massacre promovido por algumas igrejas. Pretense-se com isso ir além do que as grandes mídias e o sistema financeiro que promove as desigualdades nos impõe, mas também tocar na nossa própria ferida.

Segue na íntegra o artigo Campanha da Fraternidade 2018, Respeito e a Superação da Violência: Igreja e violência contra religiões de matriz africana!

Por Lucas Obalera de Deus[i]

“Filhos do demônio”. “Cultos afro-brasileiros não constituem uma religião”. “Aluno é barrado em escola por usar guias de candomblé”. Agressão em supermercados, ônibus, hospital. “Religiões de matriz africana sofrem sanções no mercado de trabalho”. Adolescente, idosa é apedrejada. Depredação e incêndio de terreiros. Falecimento de iyalorixás decorrentes de agressões por motivação religiosa.

Todas as frases anteriores materializam e denunciam algumas formas através das quais a violência contra as religiões de matriz africana vem ocorrendo no Brasil. Agressão verbal, física, simbólica, psicológica e ao patrimônio são os tipos de violência direcionada às religiões de matriz africana, que muitas vezes, inclusive ocorrem conjuntamente em um mesmo caso de intolerância religiosa.

Os dois primeiros parágrafos desse texto têm o objetivo de apresentar de forma sucinta a gravidade e variabilidade das violências acometidas às comunidades-terreiro. Sendo assim, para os propósitos deste texto, basta sabermos que os povos e comunidades de matriz africana são os principais alvos de agressões por motivação religiosa no Brasil[ii].

Desse modo, pretendemos marcar a enorme importância dessa discussão dentro das igrejas cristãs, especialmente devido ao papel histórico que as mesmas possuem no processo de demonização e inferiorização das religiões de matriz africana. Neste sentido, “Fraternidade e superação da violência” implica necessariamente em um movimento que produza uma real problematização do próprio caminho que a Igreja Católica assume em sua prática cotidiana no que diz respeito a este cenário de intolerância religiosa. Sendo assim, os próximos passos vão no sentido de provocar uma reflexão para dentro do universo cristão e, nesse caso específico o católico.

Para começarmos esta caminhada apresento o seguinte questionamento: qual o perfil racial de brasileiras/os católicos? Segundo dados do IBGE  2010, 50,9% dos católicos se autodeclaram negras/os. Isto significa que existem 61.412.438 brasileiras/os negras/os que dizem professar a fé cristã-católica. Mas, o que isto tem a ver com a temática deste texto, podem se perguntar? Então, as religiões de matriz africana reconstruíram em suas comunidades-terreiro uma espécie de continuidade de África em diáspora. Em outras palavras, se organizam a partir de um “paradigma civilizatório negro-africano” (Jayro Pereira, Miriam Alves e Danielle Scholz, 2015) e, como tal, são territórios que preservam uma outra forma de Ser, Sentir e Existir no mundo.

Terreiro Ilê Axé Onisegun. Foto: Paula Eliane

Portanto, seja perseguir, demonizar e/ou ignorar os conhecimentos das religiões de matriz africana, bem como fechar os olhos ao cenário de violência, significa permitir que milhões de pessoas de ascendência africana continuem negando sua ancestralidade e o seu patrimônio cultural civilizatório negroafricana. Isto quer dizer, a igreja acaba por atualizar seu papel colonial, na medida em que o racismo segue em suas igrejas, precisamente, porque uma das características do racismo é exatamente o de fazer com que negras/os tenham aversão, desconheçam, produzam auto ódio e que, logo, sigam alienados da sua cultura, história e tradições ancestrais. É como nos ensina os versos do samba de Jorge Aragão: “Se o preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade. Não nos ajuda, só nos faz sofrer. Nem resgata nossa identidade”. Diante disso, pontuo que um dos movimentos para se superar a violência religiosa está diretamente relacionada a necessidade de colocar o racismo como pauta central dentro das igrejas racializando as discussões bíblicas e as próprias relações sociais.

Outro elemento a ser apresentado nessa caminhada encontraremos a partir da reflexão desenvolvida por Mãe Stella de Oxosi em seu artigo intitulado Que Orixá rege o ano?  Em determinado momento Mãe Stella apresenta a seguinte reflexão/ensinamento:

“‘E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o Candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?’. A resposta é: Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita. Um católico, ou um protestante, será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: ‘E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão a toa?’. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato” (Fonte: Portal Geledés, 2012)

A partir da compreensão de Mãe Stella, podemos apreender aspectos presentes nos valores culturais civilizatórios negroafricana preservados e transmitidos nas comunidades-terreiro fundamentais ao debate sobre a violência por motivação religiosa.  O texto da iyalorixá, ao afirmar que cada um seguirá e será guiado por aquilo que acredita, desloca a concepção hegemônica ocidental cristã de verdade absoluta, bem como do princípio de universalidade e o maniqueísmo da referência de organização do pensamento e, consequentemente, das relações sociais.

Este deslocamento é central para a superação da violência, uma vez, a ideia de verdade absoluta, a percepção maniqueísta da realidade tem sido ao longo da história uma das bases que sustentam os conflitos e as perseguições religiosas.  O intolerante, no geral, seria aquele convencido de possuir a verdade e, consequentemente, considerar errado todos que divergissem da sua crença, logo, a necessidade da tolerância resultaria exatamente do conflito incontornável em torno do discurso de verdade. Neste sentido, cabe ressaltar que a própria ideia de tolerância preserva a crença na existência da verdade única e absoluta. Por isso que na prática o tolerante se relaciona de maneira assimétrica e hierarquizante que no limite visa o extermínio do Outro.

Umbilicalmente ligado o princípio da verdade absoluta encontramos também a ruptura com o pressuposto de universalidade, igualmente caro as tradições cristãs. Essa concepção de mundo é fundamental, pois o “Universal” é sempre o particular de algum lugar, uma vez que os saberes e experiências humanas são históricas, culturais e contextuais não devendo, portanto, existir qualquer tipo de hierarquização. Neste sentido, a permanência de uma igreja/teologia que se supõe/propõe universal, invariavelmente, implícita ou explicitamente, pretende homogeneizar os “vários universos culturais”, pois acaba ressaltando “Um” em exclusão total do “Outro”.

Os caminhos percorridos até aqui desejam provocar os fiéis das diversas vertentes católicas a olharem para dentro das suas próprias igrejas e se questionarem a partir do próprio lema da Campanha da Fraternidade: “em Cristo somos todos irmãos”, mas será que com os Orixás, Nkisi, Vodun, Caboclos e Pretos-Velhos[iii] também se é irmã e irmão?

Com esta indagação pretendo inferir que a possibilidade de superarmos concretamente a violência acometida às religiões de matriz africana, no que tange as igrejas, perpassa a sua capacidade de romperem com a sua crença na universalidade e verdade absoluta de sua fé. É preciso vivenciar uma experiência de fé baseada numa perspectiva de respeito que valoriza e reconhece igualmente a validade das múltiplas verdades existentes no mundo, como vimos com Mãe Stella de Oxossi. É esse processo de abolir essa mentalidade baseada em uma suposta superioridade religiosidade-cultural em relação ao “Outro” que permitirá verdadeiramente reconhecer a mesma dignidade humana-religiosa nas religiões de matriz africana.  Sem isso, fraternidade, respeito, paz, amor seguirão como palavras vazias de sentido e substancialidade na vida e que no fim retroalimentam a própria violência.

[i] Candomblecista, omorisá do Ilê Axé Onisegun. Cientista Social formado pela PUC-Rio, membro do Coletivo Nuvem Negra e ativista da Escola Livre Ubuntu de Filosofia e Teologia Afrocentrada.

[ii] Para acessar dados sobre a intolerância religiosa no Brasil ver: “Intolerância Religiosa no Brasil: relatório e Balanço” (SANTOS, Ivanir; NASCIMENTO, Maria das Graças; CAVALCANTI, Juliana; GINO, Mariana; ALMEIDA, Vitor, 2016) e “Relatório sobre intolerância e violência religiosa no Brasil (2011- 2015): resultados preliminares” (FONSECA, Alexandre; ADAD, Clara, 2016).

[iii] Orixás são divindades do Candomblé de tradição Ketu; Nkisi são divindades do Candomblé de tradição Congo-Angola e Vodun são divindades do Candomblé de tradição Ewe-Fon. Todas as tradições são oriundas de povos e culturas do continente africano. Já o Caboclo e Preto-Velho são entidades mais associadas a Umbanda.

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