Artigos e Entrevistas

O rito zairense, um exemplo de que o rito amazônico é possível e cada vez mais próximo
Por Luis Miguel Modino

As mudanças que permanecem com o tempo não são aquelas que se tornam uma realidade de um dia para o outro, uma afirmação mais significativa quando falamos da Igreja. O Papa Francisco gosta de falar de processos, de consenso, de diálogo, de escutar, de prestar atenção às coisas importantes. Em sua visão do mundo e da Igreja ele defende a multiformidade, a inculturação, a interculturalidade, dando valor às diferentes expressões de fé que foram forjadas na vida dos povos e que ajudaram a descobrir o valor do sagrado na vida cotidiana.

O rito zairense do Missal Romano pode ser considerado uma expressão de tudo isso. Diante daqueles que se comprometeram a romanizar a liturgia ao longo das décadas, estamos diante do compromisso decisivo com o que o Concílio Vaticano II propôs, a inculturação da liturgia. Este rito, “o único rito inculturado da Igreja Latina aprovado após o Concílio Vaticano II”, como o próprio Papa Francisco afirma no prefácio do livro “O Papa Francisco e o ‘Missal Romano para as Dioceses do Zaire'”, pode ser considerado “um rito promissor para outras culturas”, como diz o subtítulo.

Se existe uma região onde esta tentativa de inculturação da liturgia já tomou medidas, é a Amazônia. A celebração do Sínodo para a Amazônia, onde não podemos esquecer a importância decisiva de seu processo de escuta, do qual participaram oficialmente mais de 87 mil pessoas, foi reunindo diferentes sentimentos, nos quais os povos amazônicos expressaram seu desejo de trazer para as celebrações aquilo que fazia parte de sua própria vida, a começar por sua própria língua.

Na diocese de São Gabriel da Cachoeira, durante várias décadas, foram feitas tentativas para tornar esta Igreja inculturada uma realidade, expressões do que o Sínodo para a Amazônia reuniu no que é conhecido como o rito amazônico. Há música em diferentes línguas indígenas, que o povo canta com devoção e alegria, ritos culturais foram introduzidos nas celebrações, o sacramento do batismo também vem assumindo elementos próprios da cultura e até mesmo o rito da missa foi traduzido para a língua Tukano. Pouco a pouco estão sendo traduzidas para outras línguas, assim como a celebração da Palavra, que é o que marca a vida cotidiana das comunidades.

Com o pouco que aprendi dessa língua, pude celebrar em algumas comunidades na língua Tukano, algo que sempre foi recebido com alegria pelos próprios povos indígenas. Isto nos mostra a importância que estas realidades têm na vida dos povos originários e exige a necessidade de continuar avançando no que nos diz o Documento Final do Sínodo, “a elaboração de um rito amazônico, que expresse o patrimônio litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual amazônico”.

O Papa Francisco, que na Querida Amazônia assume o que foi dito no Documento Final, afirma que “o Concílio Vaticano II solicitara este esforço de inculturação da liturgia nos povos indígenas, mas passaram-se já mais de cinquenta anos e pouco avançamos nesta linha”. Portanto, ele vê como uma possibilidade real, ” receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contato íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos “. Neste sentido, poderíamos dizer que o Papa reúne na exortação pós-sinodal o que já está sendo vivido em diferentes regiões da Amazônia.

Avançar no que se refere a este rito amazônico é uma das tarefas que a Assembleia Sinodal, como consta em seu Documento Final, confiou ao novo organismo da Igreja na Amazônia, que foi concretizado na Conferência Eclesial da Amazônia – CEAMA, nascida em 29 de junho passado, a primeira deste tipo na história da Igreja. O Documento Final dizia que “o novo organismo da Igreja na Amazônia deve constituir uma comissão competente para estudar e dialogar, segundo os usos e costumes dos povos ancestrais, a elaboração de um rito amazônico”. Como afirmou o presidente da CEAMA, o Cardeal Claudio Hummes, na primeira assembleia plenária, celebrada nos dias 26 e 27 de outubro, coincidindo com o primeiro aniversário do encerramento da Assembleia Sinodal, estão sendo dados passos para tornar este rito amazônico uma realidade, algo mais do que possível se levarmos em conta que o rito zairense existe e o que o Papa afirmou na Querida Amazônia.

A celebração deve ser “um verdadeiro lugar de encontro com Jesus”, como o Papa Francisco implicou em diferentes ocasiões. Segundo ele, ao falar do rito zairense, ele enfatiza a importância de não celebrar “com palavras emprestadas de outros, mas assumindo toda a especificidade espiritual e sociocultural do povo congolês, com suas transformações”, insistindo que “a liturgia deve tocar o coração dos membros da Igreja local e ser sugestiva”. A Igreja não pode ter medo de expressar sua autêntica catolicidade, elemento muito presente na reflexão do atual pontífice, para assumir rostos novos, nascidos das culturas que acolheram e nas quais o Evangelho se enraizou.

Um elemento que, juntamente com a inculturação da liturgia, está incluído na Querida Amazônia é o da inculturação do ministério, uma necessidade que deve responder ao fato de que “a pastoral da Igreja tem uma presença precária na Amazónia, devido em parte à imensa extensão territorial, com muitos lugares de difícil acesso, grande diversidade cultural, graves problemas sociais e a própria opção de alguns povos se isolarem. Isto não pode deixar-nos indiferentes, exigindo uma resposta específica e corajosa da Igreja”.

Como já dissemos, o Papa Francisco assumiu o Documento Final do Sínodo, onde afirma que “propomos estabelecer critérios e disposições por parte da autoridade competente, no âmbito da Lumen Gentium 26, para ordenar sacerdotes a homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterato, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã mediante a pregação da Palavra e a celebração dos Sacramentos nas áreas mais remotas da região amazônica”. Neste sentido, segundo Querida Amazônia, é necessário assegurar que “o ministério se configure de tal maneira que esteja ao serviço duma maior frequência da celebração da Eucaristia, mesmo nas comunidades mais remotas e escondidas”.

O Papa Francisco sempre esteve aberto ao diálogo, também sobre assuntos ministeriais, afirmando na exortação pós-sinodal que “o modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico, adquirindo matizes diferentes nos vários lugares da terra”. Portanto, levando em conta as “circunstâncias específicas da Amazónia, especialmente nas suas florestas e lugares mais remotos, é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal”, ele não hesita em afirmar que “é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal”, já que “é urgente fazer com que os povos amazónicos não estejam privados do Alimento de vida nova e do sacramento do perdão”. É verdade que seu conselho é promover o trabalho missionário na Amazônia, mas as possibilidades para o futuro estão abertas ao diálogo, uma atitude cada vez mais presente na Igreja da Amazônia, que não podemos esquecer que celebrou seu Sínodo com o objetivo de encontrar novos caminhos.

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