ColunistasRosemary Fernandes da Costa

Advento – Tempo de conjugar o verbo esperançar

Estamos imersos em um tempo litúrgico muito forte para as comunidades cristãs – o tempo do Advento. Um tempo para olhar para o futuro e não para o passado. Um tempo para olhar para o que ainda não aconteceu, para o que virá. Ao mesmo tempo, um tempo para olhar o lugar de cada pessoa, de cada comunidade, como caminho nas pegadas do Amor que nos chama e dá sentido ao viver.  

O Messias já nasceu, está entre nós e é dessa esperança que somos testemunhas nos caminhos da vida. Muitas reflexões estão à nossa disposição, assim como poemas, músicas, ritos e celebrações. Não iremos aqui nos delongar sobre o tempo litúrgico, pois há livros e artigos excelentes para nos debruçarmos. Nossa reflexão será a partir do verbo que viemos aprendendo a conjugar, motivados pelo mestre Paulo Freire, e que tem se tornado um verbo dos sonhos e das lutas cotidianas em solo brasileiro: o verbo esperançar. 

É bastante comum encontrarmos a ênfase deste tempo litúrgico nesse verbo e, por isso mesmo, convidamos a visitarmos esse verbo em seus desdobramentos e, a partir deles, experimentarmos o Advento. Talvez essa seja então, nossa pergunta central: Quais os verbos que estão contidos no verbo esperançar? Pare um pouco, pegue uma folha e anote o que lhe vêm à cabeça… será uma forma gostosa de que esse artigo se torne um diálogo entre nós. 

Para pensarmos nos verbos que derivam do verbo esperançar, cabe também pensarmos juntos sobre a esperança. Onde ela nasce? Como ela se sustenta? O que ela é capaz de movimentar? 

Como o ser humano não coincide com sua existência, a esperança pertence à sua estrutura fundamental. Ou seja, todo ser humano sonha com o novo e, em função dessa aspiração, ele se lança em aventuras, riscos e vai além dos limites. Sim, você deve estar pensando que essa é também ocasião de muitas frustrações e tristezas, já que, ao mesmo tempo que desejamos o novo, nos deparamos com muitos limites que nos fazem sofrer profundamente e até mesmo ficarmos desesperançados. 

Então, nosso convite é olharmos para as comunidades mais simples, para o povo das periferias, para as comunidades rurais, para as famílias que abrem seus laços consanguíneos para acolher afetivamente filhos e filhas de toda gente. Com nosso povo vamos aprendendo que a esperança se conjuga comunitariamente e não individualmente, como o sistema em que estamos imersos quer nos fazer crer e viver. A esperança pode até ter uma dimensão individual, mas não se esgota nessa dimensão, sob pena de não construir o caminho amoroso ao qual somos atraídos. 

É na comunidade de irmãos e irmãs que a esperança se desdobra em muitos verbos e nos faz entrar em uma dinâmica do esperançar que integra o passado, os sonhos e lutas dos que nos antecederam, as realizações e lutas presentes e os próximos passos em vista das gerações futuras. Hoje, diríamos, do futuro de toda a Mãe Terra. 

A esperança cristã é, portanto, um dinamismo, uma potência, na direção de uma sociedade justa e de um ser humano aberto ao futuro, como nos diz Gustavo Gutiérrez. 

Vamos aos verbos? Os verbos do agir cotidiano, presentes no chão de nossas comunidades são verbos do esperançar: rezar, discernir, meditar, acolher, dialogar, criar estratégias, avaliar passos, resistir, reinventar. 

Estes verbos nos dizem que esperançar é todo dia, em muitas e muitas ações em que uma complementa e alimenta a seguinte, mas que também retorna, em uma circularidade renovadora do que acreditamos, do que sonhamos e na direção de novas práticas. 

Mais alguns verbos que brotam do esperançar como movimento: afirmar, legitimar, resgatar utopias, renascer, ser empático, sensibilizar-se, oportunizar. Este grupo de verbos nos fala dos impulsos necessários para alimentar o esperançar. É também parte da espiritualidade libertadora ser mediadora de significados, sonhos, potências. 

Seguimos com mais alguns verbos, ações que dinamizam o esperançar e são vividas nas comunidades: relativizar, revisar, não paralisar, construir parcerias. Esses verbos são particularmente tratados de forma diferencial quando se fala de um esperançar que bebe nas fontes do cristianismo. Pois, a fonte da esperança cristã é o projeto que já se realiza mas ainda não plenamente – o Reinado de Deus. Na direção desse projeto, as mediações históricas são importantes, localizadas, encarnadas, mas não são absolutizadas. Se elas falham, somos movidos à avaliação e recomeços na direção da meta que integra tudo e todos. 

E é nesse campo, que vamos experimentando que o esperançar vivido em muitas e muitas comunidades espalhadas em nosso chão brasileiro, as relações locais reverberam nas relações mais distantes, e vice-versa. A comunhão vai sendo tecida em redes locais, particulares, mas também vai tecendo redes em lugares que nem mesmo sonhamos. 

Por último, gostaríamos de trazer uma experiência muito forte nas comunidades e que é talvez a fonte mais potente do esperançar: a experiência da proximidade de Deus. Sim, a experiência cotidiana de que Deus promete e cumpre, de que sinaliza seu cuidado e atenção no dia a dia, que o presente não é a medida do futuro. 

Sentir Deus próximo é também construir o caminho da certeza-esperança de que Deus está voltado para a Criação, para a realização dos homens e mulheres de todos os tempos, para a dimensão amorosa que integra tudo e todos na Casa Comum. 

Advento é tempo de proximidade carregada de alegria, de paz, de felicidade. Mas é também tempo de discernimento, juízo e apelo à conversão. É tempo de apelo e novos compromissos no dinamismo que é o esperançar. 

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