ColunistasJorge Alexandre Alves

O Cardeal do Povo, o Arcebispo dos Pobres e a Campanha da Fraternidade

Nestes dias tão confusos somos afetados pela pandemia e por um desgoverno que se recusa a organizar a vacinação da população. Nossa caminhada sofre com percalços e incompreensões de toda sorte. Nem mesmo a Campanha da Fraternidade escapou da polarização e do extremismo que caracteriza nosso tempo.

Em época tão sofrida, ainda mais nesse período quaresmal que nos exige meditação, olhar para o passado recente da Igreja no Brasil pode ser um belo exercício de reflexão. Quem sabe não iluminaria a trilha que devemos seguir em meio a essa noite escura da sociedade brasileira?

Nesta semana (pessoalmente tão atribulada), fui contemplado com duas imagens de grandes figuras da Igreja no Século XX através do texto de um pequeno vídeo postado em uma rede digital. No texto, que foi publicado em Julho do ano passado, Frei Betto mostra a face corajosa de Dom Paulo Evaristo Arns.

Esse franciscano catarinense foi arcebispo de São Paulo por quase trinta anos e cardeal da Igreja. Durante os anos de chumbo foi uma das vozes a denunciar a tortura e a violência instaurados no Brasil nos tempos da ditadura militar (1964-1985). Betto, ao descrever a coragem de Dom Paulo ao adentrar presídios e delegacias, nos revela o profetismo necessário a quem exerce o ministério episcopal.

Talvez esse extraordinário cristão tenha sido quem melhor entendeu como o Concílio devia ser vivido nas grandes cidades. Embora não tivesse sido signatário de primeira ordem do Pacto das Catacumbas (nem bispo era nos tempos do Concílio), Dom Paulo vendeu palácio episcopal para poder abrir centros comunitários na periferia de sua arquidiocese, indo morar em um pequeno apartamento, como tantos paulistanos.

O Cardeal Arns foi um grande incentivador das CEBs em meio urbano. Não é à toa que ele foi chamado de “o Cardeal do Povo”. Resgatar sua história talvez possa ser útil nesse momento em que tanto necessitamos de uma bússola que oriente nosso caminho.

A segunda imagem é mais singela, o que em nada diminui em sua beleza e profundidade. O perfil Igreja dos Pobres no Instagram postou recentemente um vídeo curto, provavelmente um recorte, com Helder Câmara.

O “Arcebispo dos Pobres” estava no meio de um cortejo de carnaval no Recife, onde uma bela melodia de frevo era cantada por uma multidão. Dom Helder estava lá no meio do povo, emocionado em meio àquela cantoria comovente.  É impossível não se comover vendo o “Dom” às lágrimas em pleno carnaval.

A coragem de Paulo e a simplicidade de Helder são duas faces da mesma moeda, o profetismo. Para além disso, antes de serem autoridades eclesiásticas, ambos eram pessoas de muita simplicidade, homens do povo, acessíveis a quem quer que fosse.

Exceto diante dos poderosos para defender os pequenos, pobres e perseguidos, nenhum dos dois ostentavam os símbolos do poder episcopal. Ambos sabiam que suas autoridades não vinham de suas vestes, mas da fidelidade deles para com o Evangelho e o Reino de Deus.

Por isso, em tempos de ataques à Campanha da Fraternidade, onde nem mesmo bispos são respeitados, valeria olhar para essas duas grandes figuras da Igreja. Suas vidas e seus testemunhos certamente nos indicam um modo de olhar para esses dias tumultuados.

Ambos foram grandes incentivadores da Campanha da Fraternidade no passado. Cabe a nós, no presente, fazer um exercício de imaginação e tentar descobrir como Dom Paulo e Dom Hélder se posicionariam frente ao que estão fazendo com a CFE-2021. Esse é o caminho a seguir.

Obs.: O texto de Frei Betto pode ser lido aqui: https://iserassessoria.org.br/frei-betto-o-cardeal/ e a postagem do perfil “Igreja dos Pobres” no Instagram pode ser acessada aqui: https://www.instagram.com/p/CLuX-ugFtGb/

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal das CEBs

 

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