ColunistasIrmã Ivone Gebara

O que é machismo?

Para a maioria das pessoas a palavra machismo se tornou uma palavra feia, quase um xingamento. Qualquer atitude, sobretudo se provinda de homens, que contenha formas de imposição, de mando, de agressividade, de intransigência diante de algumas situações são chamadas de machismo. Por isso muitas pessoas acabam até dizendo que as mulheres também podem ser machistas.

No fundo não compreendemos bem o que se passa nas relações humanas e como elas se constituíram ao longo das culturas e das heranças milenares que recebemos. Por isso proponho a vocês começar a entender o machismo a partir de uma compreensão mais ampla do que chamamos de mundo patriarcal. O que é mesmo o mundo patriarcal?

Mundo patriarcal é uma expressão que designa uma forma de organização social a partir da qual a figura masculina do pai, do homem, é o princípio e o centro da organização da sociedade. Em palavras simples significa que a organização política, econômica, social e cultural tem seu apoio público nas figuras masculinas. Reis, presidentes, governadores, empresários são na sua grande maioria homens. E até a imagem de Deus, mesmo se apenas simbolicamente, aparece como masculina. Chamamos Deus de Pai, de Senhor, de Rei dos céus e da terra.

É a predominância pública e privada do poder masculino que constituiu a base do poder patriarcal. E a partir dela se fizeram também as diferenciações hierárquicas entre os machos. Introduziram-se hierarquias na cor da pele, na cultura, na religião, nas posses maiores ou menores, de forma que o topo ficasse quase sempre com a imagem de um poderoso homem branco heterossexual que se tornasse o modelo perfeito para todos os homens e a aspiração obediente de todas as mulheres. As mulheres reconheciam, apesar de algumas exceções, esse poder, permitiam que ele as habitasse e dirigisse suas vidas e foram importantíssimas na sua manutenção. Além disso, eram as reprodutoras através da educação dos filhos e filhas desse modelo.  Isso é o que chamamos de estruturas do mundo patriarcal. Estruturas porque são como alicerces e colunas de sustentação de formas de vida social que vão se tornando um hábito, a ponto de a gente chegar considerá-las como expressões de uma natureza humana pré-fixada por Deus.

Os excessos do poder patriarcal foram se tornando insuportáveis e foram sendo percebidos como machismo, ou seja, excessos do poder dos machos, daqueles que biologicamente são declarados do chamado sexo forte, pelo simples fato de terem nascido com um pênis. O pênis já lhes dava o privilégio de entrar na história humana com um poder diferente e serem reconhecidos como superiores às mulheres. Por isso algumas culturas permitiram aos pais de matar bebês fêmeas, porque não conservam a linhagem masculina, e que eram consideradas de menor valor.

O século XX assiste a uma grande revolução cultural em que, de diferentes formas, se busca compreender os seres humanos de uma forma diferente. Já não se admite mais os excessos do poder masculino ou do machismo. Já não se aceita mais sua apropriação dos corpos femininos e nem dos corpos que muitos consideram inferiores ao seu. Já não se aceita mais que eles tenham a única direção nas políticas de Estado, nas políticas públicas, nas religiões, na História em suas diferentes expressões. Uma nova sensibilidade social e cultural começa a se delinear em muitos lugares do mundo e a buscar a confecção de leis nacionais e internacionais que nos protejam e legislem sobre os novos comportamentos igualitários que estamos querendo introduzir.

As tradições religiosas e de forma especial os monoteísmos também estão sendo atingidos. Temos que admitir que as religiões são lugares em que as mudanças ocorrem de forma mais lenta porque são fundadas em posturas mais dogmáticas consideradas por muitos imutáveis. Porém sabemos bem que o imutável é apenas uma ideia. Não é a realidade de cada dia sempre sujeita às mudanças, sempre nos convidando a um novo momento, a um novo caminho, a uma nova humanidade. Por isso estamos lutando contra o machismo que nos habita e contras as velhas formas de dominação e conivência que ajudam a reproduzi-lo. Não seremos perfeitos/as, mas seremos capazes de inventar novas relações em que a justiça poderá se mostrar de forma mais real e palpável.

 

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