Artigos e Entrevistas

Religião e racismo estrutural
Por Jorge Alexandre

O dia 20 de novembro de 2020 foi marcado não somente pela memória e pela ancestralidade, mas também pelo luto e pela necessidade da luta. Ressoa alto e forte a afirmação de Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. Todos o que sonham com um Brasil justo, fraterno e solitário têm obrigação de apoiar a luta da gente preta deste país.

É triste quando testemunhamos um assassinato, um cancelamento e um silenciamento em uma semana que deveria de ser de afirmação da negritude. O homicídio bárbaro que vitimou João Alberto Freitas em Porto Alegre deveria ressoar tão fundo no coração do Povo de Deus quanto o sangue de Abel clamou a Javé. O que Jesus de Nazaré diria a esse respeito?

Tão grave quanto é a atitude negacionista da segunda maior autoridade da República. O vice-presidente, ao afirmar que não existe racismo no Brasil, cancela o sofrimento de milhões de brasileiros. A declaração de Hamilton Mourão legitima a indignidade assassina que faz da pele preta suspeita e considerada inferior.

Para os cristãos em particular, a agenda antirracista deveria ser parte fundamental e necessária da construção do Reino de Deus em nosso meio. Não se trata somente de solidariedade a uma causa justa, mas sim de fidelidade ao anúncio e ao seguimento de Jesus. Ele, negro que foi, seria protagonista nessa luta.

Aliás, é uma característica do cristianismo incorporar aspectos organizativos, filosóficos e litúrgicos de matrizes culturais distintas de suas raízes semitas. Acolher a diversidade cultural foi decisivo para a fé cristã desde que São Paulo resolveu pregar o Deus de Jesus Cristo no areópago de Atenas. O que seria da teologia cristã sem as contribuições da filosofia grega que grandes doutores da Igreja como Agostinho e Tomás de Aquino introduziram?

Não por acaso, um dos grandes frutos do Concílio Vaticano II foi a questão da inculturação cristã. A presença da Igreja neste continente sempre foi inculturada. É o que podemos perceber na devoção mariana à Virgem de Guadalupe no México, à Nossa Senhora de Copacabana na Bolívia ou à Mãe Aparecida no Brasil.

Muitas vezes nos esquecemos de que embora o centro de poder do cristianismo tenha se estabelecido na Europa, suas raízes estão fincadas no Oriente Médio. Jesus, quando adulto, jamais saiu da Palestina. O Evangelho chegou aos confins do mundo graças ao diálogo que se deu entre a proposta de Jesus e cada cultura que a recebia.

No Brasil, não podemos nos esquecer que muitas vezes a fé cristã foi instrumentalizada e fez parte da dominação colonial cujos efeitos sentimos até hoje. O racismo é um deles. Por isso, é muito triste constatar o silenciamento produzido na arquidiocese do Rio de Janeiro, onde se proibiu uma missa inculturada no último dia 20 de novembro.

Não se trata de uma situação simples. Ano passado, em um templo católico, houve um tumulto causado por um grupo de fundamentalistas na mesma data. Pessoas que afirmavam falar em nome do arcebispo entraram na igreja, tentaram constranger o padre, rezaram em voz alta em Latim, tudo para impedir o que eles consideravam uma heresia.

Na confusão, um leigo, negro, recebeu um tapa no rosto e a confusão que se criou somente cessou com a chegada da Polícia. Na época, a única reação das autoridades eclesiásticas foi o silêncio. Nem ao menos um desmentido a respeito da alegação de agir em nome da autoridade eclesiástica da parte do tal grupo.

Os responsáveis por aquela cena lamentável foram indiciados por causa do episódio. Mesmo assim prometeram retornar à mesma igreja nesse ano. Vale dizer, a paróquia fica na mesma rua, a poucos metros da cúria arquidiocesana, no bairro da Glória, região central do Rio de Janeiro.

Entretanto, no Dia Nacional da Consciência Negra desse ano, a missa não aconteceu. O templo estava trancado, nenhum comunicado foi feito pela paróquia. Soube-se que a comunidade paroquial não foi consultada a respeito e a missa, já na sua 16ª edição, não foi realizada.

Diante da repercussão negativa que esse episódio causou na imprensa carioca, a arquidiocese emitiu uma nota sobre o dia da Consciência Negra. Para o bem da verdade, o comunicado não fala de proibições específicas. Menciona que a data deve estar nas intenções das missas do dia e da valorização da Pastoral Afro-Brasileira em atividades de cunho diocesano.

Todavia, um trecho chama a atenção ao se referir ao uso de elementos rituais das religiões de matrizes africanas. Alimentos sagrados que, enquanto elementos de culto, seu uso deveria se circunscrever ao contexto desses ritos. Da mesma forma, a nota reforçava que as missas deveriam estar em conformidade com as orientações da Igreja para as celebrações litúrgicas.

Assim, ao se ler a nota, não há como deixar de pensar na igreja fechada no dia da Consciência Negra. Nem tampouco podemos nos negar a levantar algumas questões muito incômodas. Inicialmente, sob qual alegação se proibiu a realização desta missa? E por que a arquidiocese não se pronunciou objetivamente sobre o caso?

Se a não realização da celebração inculturada se deveu a questões litúrgicas, quais foram elas? Se desde 2004 essa missa era rezada, e se havia algum tipo de objeção séria sobre a fidelidade ao rito nela usada, porque a arquidiocese esperou tantos anos para proibi-la? Ainda mais acontecendo na rua da sede da arquidiocese. Tais perguntas nos levam a desconfiar se é realmente um caso de liturgia.

Finalmente, a forma como se deu esse lamentável episódio não revela uma tentativa de silenciamento das questões raciais na Igreja do Rio de Janeiro? Nesse sentido, isso não aproxima a conduta adotada às declarações infelizes do vice-presidente da República? O paradoxal é que nem o general Mourão quanto o arcebispo são homens brancos.

Não se trata aqui de fulanizar uma questão tão importante. Mas esse caso coloca um debate muito sério: Em que medida a religião é um instrumento do racismo estrutural? Será que estruturas eclesiais – independente das posições pessoais – podem ser agentes do racismo religioso? Além da discussão racial, toda a polêmica deste caso parece reforçar posições intolerantes de grupos fundamentalistas.

Neste episódio triste, parece que ações de intolerância ou são capazes de emparedar autoridades eclesiásticas ou contam seu beneplácito. Ambas opções são gravíssimas. Mas tão grave quanto é perceber que tudo isso é revelador do racismo religioso e do quanto ele aparece nas estruturas da Igreja.

Sobre a liturgia, somente caberia alguma objeção se, em alguma celebração, aparecessem um martelo de Xangô, uma Guia de Preto-Velho ou uma espada de Ogum durante a missa. Não parece ser esse o caso… E causa estranhamento que, somente após uma manifestação de fundamentalismo religioso, que se mandasse suspender uma celebração que acontecia há tantos anos.

Na semana da Consciência Negra, o silenciamento materializado na igreja trancada em 20 de novembro diz o quanto precisamos avançar na questão da inculturação. Triste constatar que muitas vezes a falta de entendimento sobre o tema evidencia preconceitos incompatíveis com a fé cristã. Um longo caminho ainda falta percorrer na superação do racismo religioso.

As palavras de Dom Helder Câmara, na também proibida Missa dos Quilombos quase 40 anos atrás, ainda são muito atuais. Tanto naquele tempo quanto hoje, a resposta dos intolerantes foi silenciar novas expressões da fé e do culto ao Deus da vida. Mas o velho arcebispo nunca deixou cair a profecia…

Dizia o “santo rebelde” em sua saudação à “Mariama”, Nossa Senhora: (…)Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso. Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama!

*Jorge Alexandre Alves é Sociólogo e Professor. Foi catequista do Crisma, da Pastoral da Juventude e hoje integra a Coordenação Ampliada do Movimento Nacional Fé e Política.

 

Foto: Brasil de Fato

 

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